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sábado, 15 de março de 2014

JACAREÍ, 10.03.2014 -MENSAGEM DO ANJO SÃO MIRIEL - 251ª AULA DA ESCOLA DE SANTIDADE E AMOR DE NOSSA SENHORA - TRANSMISSÃO DAS APARIÇÕES DIÁRIAS AO VIVO VIA INTERNET NA WEBTV MUNDIAL: WWW.APPARITIONSTV.COM




JACAREÍ, 10.03.2014 -MENSAGEM DO ANJO SÃO MIRIEL - 251ª AULA DA ESCOLA DE SANTIDADE E AMOR DE NOSSA SENHORA - TRANSMISSÃO DAS APARIÇÕES DIÁRIAS AO VIVO VIA INTERNET NA WEBTV MUNDIAL: WWW.APPARITIONSTV.COM


ASSISTA O VÍDEO DESTE CENÁCULO:
(AGUARDE)



JACAREÍ, 10 DE MARÇO DE 2014
251ª AULA DA ESCOLA DE SANTIDADE E AMOR DE NOSSA SENHORA
TRANSMISSÃO DAS APARIÇÕES DIÁRIAS AO VIVO VIA INTERNET NA WEBTV MUNDIAL: WWW.APPARITIONSTV.COM
MENSAGEM DO ANJO SÃO MIRIEL

(Anjo Miriel): “Amados irmãos Meus, Eu, Miriel, Anjo do Senhor, venho novamente para abençoar-vos e dar-vos a Paz.
Rezai o Rosário todos os dias, quem reza o Santo Rosário será sempre seguido por Nós, os Santos Anjos e protegido por Nós em todos os momentos de sua vida.
Quem reza o Santo Rosário da Mãe Deus todos os dias, não será atingido pelos raios da Cólera de Deus, pois o Santo Rosário torna a alma cada vez mais santa, contrita, amiga de Deus. E assim, dia após dia, ela vai cancelando os castigos que merecia por seus pecados e vai se tornando cada vez mais digna de novas bênçãos e graças de Deus.
Rezai o Santo Rosário todos os dias e rezai também o Terço das Lágrimas da Mãe de Deus como Ela vos pediu, pois através Dele salvareis muitas almas, inclusive a vossa própria.
Nós, os Santos Anjos, temos um especial cuidado pela alma que reza o Santo Rosário e o Terço das Lágrimas da Mãe de Deus todos os dias. Por isso rezai muito estes Terços e Nós vos ajudaremos.
Eu, Miriel, venho para dizer-vos: Que quando a alma está verdadeiramente unida a Deus pela caridade divina, ela foge de todo o pecado, pois possui o Dom do temor de Deus, que a faz temer ofender a Deus com o pecado grave.
Por isso, o sinal mais evidente de que uma alma ama verdadeiramente a Deus e a Ele está unida, é ela possuir o santo temor de Deus.
Rezai muito. Rezai para que o mundo possa ter paz. Rezai para que a Paz possa reinar nos vossos corações e assim, os Corações Unidos possam triunfar no mundo inteiro e transformá-lo num Oásis de Paz.
Eu estou sempre convosco e vos protejo em todas as dificuldades e sofrimentos que tendes.

A todos Eu, Miriel, abençoo agora derramando sobre vós as graças celestiais do Senhor.”

div.pombas
b.pisca


TRANSMISSÕES AO VIVO DIRETO DO SANTUÁRIO DAS APARIÇÕES DE JACAREI - SP - BRASIL
Daily Apparitions' broadcast direct from the Apparitions Shrine of Jacareí

De Segunda a Sexta-feira às 21:00h | Aos Sábados, 14:00h | Aos Domingos, 09:00h 
Week days, 09:00 PM | On Saturdays, 02:00 PM | On Sundays, 09:00AM (GMT -02:00)

JACAREÍ, 09.03.2014 -MENSAGEM DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E NOSSA SENHORA - 251ª AULA DA ESCOLA DE SANTIDADE E AMOR DE NOSSA SENHORA - TRANSMISSÃO DAS APARIÇÕES DIÁRIAS AO VIVO VIA INTERNET NA WEBTV MUNDIAL:WWW.APPARITIONSTV.COM

JACAREÍ, 09.03.2014 -MENSAGEM DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E NOSSA SENHORA - 251ª AULA DA ESCOLA DE SANTIDADE E AMOR DE NOSSA SENHORA - TRANSMISSÃO DAS APARIÇÕES DIÁRIAS AO VIVO VIA INTERNET NA WEBTV MUNDIAL:WWW.APPARITIONSTV.COM

ASSISTA O VÍDEO DESTE CENÁCULO:

CONTENDO:

FESTA DE NOSSA SENHORA DAS LÁGRIMAS - APARIÇÕES DE CAMPINAS EM 1930
SACRATÍSSIMO ROSÁRIO MEDITADO N.309
EXIBIÇÃO DO FILME - VOZES DO CÉU 19 - AS APARIÇÕES DE MARIA SANTÍSSIMA EM CASANOVA STAFFORA
APARIÇÃO E MENSAGEM DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E MARIA SANTÍSSIMA



JACAREÍ, 9 DE MARÇO DE 2014
FESTA DE NOSSA SENHORA DAS LÁGRIMAS
84º ANIVERSÁRIO DAS APARIÇÕES DE CAMPINAS À VIDENTE AMÁLIA AGUIRRE
250ª AULA DA ESCOLA DE SANTIDADE E AMOR DE NOSSA SENHORA
TRANSMISSÃO DAS APARIÇÕES DIÁRIAS AO VIVO VIA INTERNET NA WEBTV MUNDIAL: WWW.APPARITIONSTV.COM
MENSAGEM DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO E NOSSA SENHORA

(Nosso Senhor): “Amados filhos Meus, hoje, venho com a Minha Mãe Santíssima mais uma vez para vos abençoar e para vos dar a Paz.
Venho para dizer-vos: O Meu Sagrado Coração ama-vos, ama-vos com todas as Suas forças e é por isso que estou Aqui com a Minha Mãe há tantos anos nestas Aparições, para vos salvar, para vos dar todas as graças do Meu Coração e auxílios da Minha bondade, para que chegueis até Mim no Céu e para que possais escapar das redes do Meu inimigo, do Meu adversário que quer a todo o custo a vossa perdição.
Oh, filhinhos Meus, não tenhais medo Meus irmãos amados, porque o Meu Sagrado Coração vela por vós e está continuamente juntinho de vós. Antes mesmo que o Meu inimigo possa fazer algum mal contra vós, Eu, de tudo tenho ciência e sei como defender-vos e ajudar-vos.
Confiai no Meu Sagrado Coração, que é o Coração de um Bom Pastor, que cuida das Suas ovelhas e que zela pelo rebanho a Ele dado pelo Seu Pai Celeste.
Eu tenho planos maravilhosos para vós com graças estupendas, necessito apenas do vosso ‘sim’ para realizar em vós tudo o que quero. A Minha vontade de transformar-vos em obras maravilhosas de Santidade e Amor é muito grande. Desejo apenas o vosso consentimento e Eu e o Meu Espírito Santo realizaremos em vós coisas tão belas que vós verdadeiramente ficareis extasiados de amor. E esse êxtase de amor será tão grande a ponto mesmo de quase fazer-vos morrer de alegria e felicidade.
O Meu Sagrado Coração vos elegeu, sois os Meus eleitos e estais Aqui porque Eu mesmo quis, por que Eu mesmo vos chamei e Eu mesmo desejo realizar em vós Meus Planos de Amor.
Meus eleitos, Eu vos escolhi e agora é o momento de vós Me escolherdes. Renunciai ao pecado, não queirais voltar mais ao pecado de onde Eu vos tirei. Porque Eu vos digo: Tirar-vos do pecado a primeira vez, é mais fácil do que tirar-vos a segunda vez. Não porque o pecado seja maior que Eu, mas porque a vossa dureza e a vossa vontade estarão mais empedernidas e obstinadas do que na primeira vez, por isso o Meu Sagrado Coração terá maior sofrimento para trazer-vos novamente ao caminho da graça.
Portanto filhinhos, pedi todos os dias nas vossas orações, pedi no Rosário a graça da vossa perseverança, da vossa fidelidade à Minha Graça, aos Meus Mandamentos, à Minha Vontade Santa, para que verdadeiramente vós possais estar sempre em Mim e Eu em vós, sempre Comigo e Eu convosco.
Oh! Não deis a satanás a oportunidade para tentar-vos, não deis lugar ao diabo. Renunciai a ele e a tudo o que vos leva ao pecado, para que verdadeiramente no vosso coração só haja a presença do Meu Espírito Santo realizando em vós maravilhas de santificação e graça.
Continuai a rezar o Terço da Misericórdia todos os dias, pois com Ele vos darei grandes graças. Continuai a rezar todos os Terços que vos dei Aqui e especialmente o Terço das Lágrimas da Minha Mãe, porque tudo o que Me é pedido pelas Lágrimas da Minha Mãe Eu amorosamente concedo, não posso resistir a quem Me pede em nome dessas Lágrimas que a Minha Mãe Santíssima chorou com dor e profundíssimo amor por Mim.
Por isso, tudo aquilo que pedirdes pelas Lágrimas de Minha Mãe, o Meu Sagrado Coração vo-lo concederá ainda que não seja hoje, mas, continuai a rezar, pois não sabeis se amanhã ou depois de amanhã vos darei Minha Graça salvadora, que em um momento só transformará todo o vosso padecer em hinos de alegria.
Eu estou Aqui nestas Aparições com a Minha Mãe Santíssima para dizer-vos que o tempo é grave. Em breve o Meu Pai vai fazer grande Justiça e vai mandar à Terra um fogo terrível, que vai verdadeiramente queimar todos os pecadores e as más obras que saem de seus corações.
Sim, ai daqueles que estivem com as mãos manchadas de pecado, aqueles que estiverem vivendo na mentira do pecado e que estiverem todos os dias a renovar o Meu sofrimento e o sofrimento da Minha Mãe. Porque a esfera da purificação virá e tragará para o seu interior esses infelizes, fazendo-os verdadeiramente ranger os dentes de dor, ouvir-se-ão gritos pavorosos de dor no ar por causa disso e os pecadores não poderão escapar da Ira do Meu Pai.
Por isso, mudai de vida agora que Eu venho a vós como um médico para curar-vos, como um amigo para reconciliar-Me convosco, como um Pai para perdoar-vos, como um advogado para defender-vos, como um guardião para guardar-vos.
Arrependei-vos dos vossos pecados, mudai de vida e segui pela estrada da Graça, da Oração e do Amor que Eu e a Minha Mãe vos mostramos Aqui. Vede que o Carinho e o Amor que tenho para convosco é muito grande, ao chamar-vos Aqui dei-vos a maior prova de Amor, porque quando vós Me ofendíeis ou não Me conhecíeis, ainda assim vos amei, vos chamei e atraí para o Meu Coração.
Acreditai, portanto, neste Meu Amor e segui em frente cumprindo tudo o quanto vos tenho dito em Minhas Mensagens. Oh! Rezai também o Rosário da Minha Mae Santíssima, porque o Rosário desarma a Minha Justiça, o Rosário move a Minha Mão a abençoar-vos. O Rosário abre as portas do Meu Sagrado Coração para derramar sobre vós todas as Graças nele contidas. Por meio do Rosário vós verdadeiramente podeis deter a Minha Justiça, a Justiça do Meu Pai de castigar a Terra e por outro lado também com o Rosário podeis alcançar de Mim inúmeros favores para a vossa vida corporal e espiritual.
Como Me alegram os vossos Rosários, quando rezais o Rosário com o coração não é somente a Minha Mãe Santíssima com os Anjos e Santos que descem do Céu para receber o vosso Rosário, mas também Eu e a cada Ave Maria sai da vossa boca uma grande luz.
Saem tantos globos luminosos que sobem ao Meu Sagrado Coração para derramar sobre vós graças. Os globos luminosos que vós vedes Aqui em muitos dias de Cenáculos não são apenas símbolos das graças que Eu derramo sobre vós com a Minha Mãe, mas também são o símbolo dos vossos Rosários e Orações que sobem a Mim e que Eu transformo em graça para vós. Deveis, portanto, continuar a rezar o Rosário e a rezar todas as Orações que Eu vos mandei fazer Aqui com a Minha Mãe.
Vede que Eu enviei a Minha Mãe e vim com Ela ao vosso país nos anos 1930 para dar-vos a Coroa das Lágrimas. Quando vos dei esta Coroa, este Terço, dei-vos um Dom imenso do Meu Sagrado Coração, com o qual podeis alcançar tudo: a salvação eterna, que sejais livres do fogo do inferno, podeis também alcançar curas, conversões, podeis mudar tudo aquilo que na vossa vida é difícil ou impossível em graças de Amor, de Paz para vós mesmos.
Com a Coroa das Lágrimas de Minha Mãe vós podeis afastar o demônio de vós mesmos, das vossas famílias, do local onde trabalhais e onde viveis e podeis mesmo deter guerras, castigos e calamidades. Com a Coroa, com o Terço das Lágrimas da Minha Mãe, vós podeis mesmo alcançar para vós mesmos o apressamento do Triunfo dos Nossos Sagrados Corações e a vinda dos novos Céus e da nova Terra. Por isso, enquanto vós podeis rezar o Terço das Lágrimas de Minha Mãe que ninguém desanime, nem consigo mesmo, nem com os outros e nem com o mundo. Porque tudo ainda tem salvação pelo Terço das Lágrimas da Minha Mãe.
Eu, Jesus, vos aperto ao Meu Sagrado Coração e agora quero derramar sobre vós as abundantes graças do Meu Coração, amo-vos a todos, cubro-vos a todos com o Meu Manto Divino. A ninguém Eu desejo condenar, por isso, aceitai Meus filhinhos, irmãos amados Meus, aceitai o Amor, as Graças do Meu Sagrado Coração.
Convertei-vos! Esforçai-vos por converter-vos e ao mesmo tempo pedi o auxílio da Minha Graça, que não vos faltará. E mais dia, menos dia, quando menos esperardes vos visitarei e transformarei a vossa alma toda chagada de pecados numa alma luminosa mais brilhante do que o sol e repleta de beleza, virtude, perfeição e amor em pura transformação.
Segui o Meu conselho, rezai, não vos fixeis nas vossas fraquezas e misérias, rezai, porque com a Oração vós abris para Mim a possibilidade de dar-vos todas as graças e milagres para serdes salvos.
Pedi e recebereis de Mim, batei na porta do Meu Coração pela Oração e vos darei tudo. Buscai em Mim a graça pelas Lágrimas da Minha Mãe, pelo Rosário da Minha Mãe e todas as Graças Eu vos darei. Porque Aqui Eu vim construir o Trono das Minhas Graças, para assim fazer triunfar o Meu Coração e o Coração da Minha Mãe em todos vós, para todos vós no mundo inteiro.
A todos vos abençoo com amor agora, de Dozulé, de Plock e de Jacareí.
A Paz Meus filhos amados. A Paz Marcos, o mais amado e esforçado dos Meus filhos.”

(Maria Santíssima): “Amados filhos Meus, hoje, venho novamente com o Meu Divino Filho Jesus Cristo para dizer-vos: Paz, Paz, Paz! Pelo Terço de Minhas Lágrimas alcançareis a Paz para o vosso coração, para as vossas famílias, para a vossa sociedade e para o mundo inteiro.
Quando sentirdes que o demônio perturba e causa desordem destruindo a Paz, rezai o Terço de Minhas Lágrimas e vereis como imediatamente a Paz voltará para o meio de vós.
Com o Terço das Minhas Lágrimas, vós podeis alcançar tudo, podeis alcançar libertação de qualquer pecado, de qualquer maldição, de qualquer miséria, de qualquer situação difícil que passais em vossas vidas.
Eu dei este Terço à Minha filhinha Amália Aguirre, para que Ela o desse a vós, para que por meio dele vós recebêsseis todos os tesouros, todas as Graças e Milagres do Meu filho Jesus, porque ao que Me pede em nome das Minhas Lágrimas, pelas Minhas Lágrimas, o Meu Filho não nega se for justo e se for de Sua Santa Vontade. Por isso, confiança filhinhos, com este Terço alcançareis enormes graças dos Nossos Sagrados Corações.
Vede que Eu dei este terço quando a ação de satanás no mundo iria tornar-se ainda mais forte e feroz. Verdadeiramente, ele relaxou os conventos lançando-os na apostasia e introduzindo inclusive, pecados dentro desses conventos e seminários para fazer apodrecer as flores das almas consagradas a Deus Introduzindo pessoas condescendentes com o pecado ele introduziu o cupim que corroeu todos os seminários e conventos destruindo-os. E é por isso, que deveis rezar muito o Terço das Lágrimas para impedir que satanás continue a fazer isso destruindo a santidade das almas que Deus escolheu.
O demônio também introduziu-se nas famílias, por meio dos meios de comunicação e também da lama do pecado que cada vez mais inunda tudo e com a sua lama venenosa. ele destruiu a santidade das famílias, destruiu a união das famílias fazendo com que pouco a pouco elas se afastassem de Deus enveredando pelo caminho do pecado, dos maus costumes, da busca desenfreada do prazer, da sensualidade, das coisas vãs e materiais que não podem de maneira nenhuma dar-vos a mesma paz que Deus dá.
Por isso, peço: Que o terço das Minhas Lágrimas volte a ser rezado nas famílias, para que elas se recobrem pouco a pouco aquela vida de oração, aquela vida de amor a Deus e de união que existia antes quando as famílias rezavam pelo menos o Santo Terço.
O demônio fez com que a sociedade toda fizesse leis iníquas contrárias às Leis de Deus e pregasse um modo de viver contrário àquele que Deus deseja. E com isso, o Meu inimigo cada vez mais fez com que a sociedade se tornasse pagã, idólatra do prazer, do sexo, das honras, das coisas materiais, do ateísmo fazendo com que toda ela, como um homem que cambaleia golpeado e fosse ferido de morte se encaminhasse para o abismo da sua total destruição.
E é por isso que agora Eu desejo que volteis a rezar o Terço das Minhas Lágrimas em todo lugar, para que a sociedade como um todo volte de novo a Deus e a viver segundo os Mandamentos de Deus, para que ela possa finalmente encontrar a ordem, a harmonia, a concórdia e a paz.
O demônio também infiltrou-se dentro da igreja, como Eu disse em La Salette e de alto a baixo obscureceu tudo com a sua tenebrosa fumaça. Por isso, obscureceu as inteligências dos pastores, dos que deviam dirigir o povo de Deus pelo caminho da santidade. E ao contrário, agora os dirige para longe de Deus, de Mim e da salvação negando as Minhas Mensagens, diminuindo a devoção a Mim, aos Santos e aos Anjos, negando a verdades dos Dogmas da Fé, contradizendo a Vida dos Santos, se colocando contra a Penitência, a Oração, a Santidade que os Santos de Deus possuíram e até negando as verdades contidas nas Sagradas Escrituras, fazendo com que sempre um maior número de almas caia na apostasia, perca a fé e assim se condene para sempre.
É preciso agora voltar a rezar o Terço das Minhas Lágrimas, o Santo Rosário e todas as Orações que vos pedi Aqui, em todo o lugar. Para combater essa tenebrosa fumaça do Meu inimigo e expulsá-la das famílias, da sociedade, da igreja e dos corações, para que neles volte a brilhar a luz da verdade, a luz da graça, a luz do amor, a luz da pureza.
Quantos pastores há que negam o pecado, que dizem que nada mais é pecado e que tudo se pode fazer, contradizendo assim, as verdades da Santa Fé Católica, que vos dizem que o pecado é um mal que vos leva à condenação eterna se dele não vos arrependerdes em tempo. Por isso, filhinhos, vos digo: Não caiais no sibilo da serpente, não caiais no canto da sereia infernal que tenta dizer-vos que podeis conceder-vos este ou aquele pecado, porque isto vos levará aos grandes pecados mortais, que vos levarão à condenação.
Fugi do pecado, rezai, rezai, rezai muito! Porque quem reza muito com certeza se salvará. Eu prometo, que quem rezar o Meu Rosário todos os dias, quem rezar o Meu Terço das Lágrimas todos os dias, o Terço da Paz e as demais Orações que Eu vos dei Aqui, que esse Meu filho não se condenará apesar de tudo, apesar de todas as suas dores, problemas ou imperfeições. Porque Eu pouco a pouco o conduzirei pela estrada do aperfeiçoamento, da renúncia de si mesmo, do desprendimento das criaturas e das coisas vãs e o farei verdadeiramente amar a Deus de todo o coração e Dele receber a graça da santidade e da salvação.
Vede filhinhos que Eu estou Aqui por tantos anos convosco, para dar-vos o remédio para tudo que precisardes. E não vos deixarei enquanto não conseguir curar-vos de toda doença espiritual e apresentar-vos a Deus belos, luminosos, imaculados, perfumados pela Minha Graça, santificados para a maior glória do Altíssimo. Por isso olhai para Mim que Sou a Estrela luminosa que brilha neste Lugar para vós para vos conduzir sempre mais pelo caminho do bem, da santidade, da oração e do amor.
Sou a vossa Mãe e Mestra e Eu mesma determino tudo Aqui neste Lugar, por isso desejo dizer-vos: Submetei-vos a Mim por amor, porque se não o fizerdes por amor o Meu Filho vos fará submeter-vos a Mim pela dor. Por isso escolhei o modo mais fácil e mais meritório, submetendo-vos à Minha Vontade por amor e deixando-vos verdadeiramente conduzir por Mim pela estrada da conversão, da oração, da salvação e da paz.
Eu apareci à Minha filhinha Amália Aguirre para dar-vos uma arma invencível com a qual venceríeis todos os obstáculos que o inimigo iria colocar no vosso caminho, que é o valor imenso das Minhas Lágrimas Benditas.
Tomai posse desse tesouro que vos dou e com ele pagai todas as dívidas que tendes com a Justiça de Deus, pedindo todos os dias perdão por meio das Minhas Lágrimas a Deus, oferecendo também o valor de Minhas Lágrimas por vossa conversão, melhoramento, vossa perseverança final e ao mesmo tempo para não continuardes a renovar todos os sofrimentos do Meu Filho e os Meus e para que não sejais jamais filhos Judas e almas traidoras Judas.
Com o valor das Minhas Lágrimas Benditas, vós alcançareis verdadeiramente de Deus e de Mim todas as graças, por isso: Rezai, rezai, rezai. E todas as vezes que o Meu inimigo desejar vir confundir-vos, dizendo que não deveis rezar, porque vossos pecados são muito grandes ou porque não tendes como libertar-vos deles. Colocai o Terço das Lágrimas nas vossas mãos e rezai-o e vereis como Eu vos darei novamente a paz interior, a certeza da graça de Deus, do perdão de Deus, a paz do perdão de Deus. E também vos darei todas as graças para que vós dali por diante possais ser verdadeiros e melhores filhos de Deus e Meus.
Praticai a penitência neste tempo santo, fazendo muitas vezes atos de humildade diante de Deus, atos de amor, atos de contrição, atos de esperança e atos de propósito de verdadeiramente vos converterdes e serdes melhores do que foram até hoje. Eu prometo tomar essas almas que fizerem estes atos e conduzi-las todas por uma estrada nova de graça, beleza e amor.
Filhinhos, o Meu Jesus e Eu vos amamos muito e quando vos escolhemos para virdes Aqui, Nós vos manifestamos a grandeza do Nosso Amor abrasador por vós. Aceitai-o em vossos corações e deixai que Nós verdadeiramente possamos trabalhar em vós, arrancando do vosso coração tudo o que se opõe à Nossa Vontade e à Nossa Graça para que assim, em vós haja, exista apenas aquilo que os Nossos Sagrados Corações desejam.
Convertei-vos sem demora, não brinqueis Comigo, nem com o Meu Filho Jesus porque o Pai Eterno está para fazer Justiça em breve. A esfera da purificação descerá, já se aproxima e ela perseguirá todos aqueles que não estiverem na graça de Deus, todos aqueles que vivem na mentira ou na vida dupla fazendo de conta servir a Deus, enquanto que na verdade servem-se a si mesmos e buscam unicamente satisfazer as suas paixões desordenadas e seus desejos. Ela também perseguirá todos os blasfemadores, todos os que se aliaram à serpente, o Nosso inimigo para espalhar na terra inteira o veneno da sua perdição mortal.
Esta esfera não poderá ser detida por nada e ai daqueles que ela sugar para o seu interior, porque ali mesmo em carne mortal começarão a arder como no inferno para continuar a arder para todo o sempre nas chamas infernais. Rezai muito para não serdes do número desses infelizes e aproveitai o tempo que Deus vos dá para a vossa conversão agora, para verdadeiramente mudardes de vida.
O que Eu disse em La Salette e em El Escorial vai acontecer, Deus desembainhará a Sua Espada e quando Ela vibrar, ai da Terra e seus habitantes. Ai daqueles que se levantaram contra o Altíssimo ou então que O ofenderam deliberadamente com os seus pecados. A espada pende sobre as vossas cabeças e é preciso que agora verdadeiramente vos convertais, porque quando Deus der o seu golpe fulminante de Justiça até as montanhas e muitas terras serão tiradas do seu lugar, porque o Seu golpe será fulminante e ninguém conseguirá escapar dele, ninguém.
Vede que Deus é bom e está Aqui há mais de vinte anos por meio de Mim dando-vos todas as chances, avisando-vos, chamando-vos, mas os vossos corações ainda são tão duros.
Convertei-vos filhinhos! Rezai, pela oração vós sereis guiados por Mim e por Meus Anjos à perfeita conversão.
Não olheis para trás, não olheis para baixo, olhai para Mim e rezai, rezai e rezai, sem desanimar. E, sobretudo, confiai em Mim que vos amo tanto, que vos carrego nos Meus braços e nunca, nunca vos deixarei cair, nem vos abandonarei. Porque o Meu Amor por vós é tão grande, que ainda que vós pudésseis compreendê-lo um pouco nesta Terra, nunca chegaríeis a compreende-lo todo, porque só no Céu tereis a capacidade de sentir todo o Meu Amor e de compreender todo o Meu Amor. E muito mais do que vós quereis ser salvos e desejais a vossa salvação, muito mais Eu quero a vossa salvação.
Por isso confiai em Mim, deixai a vossa salvação em Minhas Mãos e vós fazei apenas o que compete a vós e que vos peço: Rezai, rezai, rezai! Renuncia ao pecado, caminhai na estrada da graça e o Meu Coração Imaculado fará tantos milagres por vós que vós filhinhos chegareis Aqui ao Céu verdadeiramente triunfantes ao Meu lado.
A todos agora abençoo com Amor, abençoo as Medalhas das Minhas Lágrimas que vós tendes convosco e todas as outras, todos os Escapulários, Terços e Rosários. Para que vós possais levar todos esses sinais da Minha presença e da Minha graça aonde quer que fordes. Abençoo as Imagens e abençoo também a vós e a vossos familiares derramando sobre vós as copiosas graças e bênçãos do Meu Imaculado Coração.
A todos agora abençoo de Fátima, de Casanova Staffora e de Jacareí.”

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O grito lancinante de uma alma » "A Carta do Além"

O grito lancinante de uma alma » "A Carta do Além"

O Vidente Marcos Tadeu fez uma explanação no Cenáculo de 09.03.2014 sobre este livro.

Este texto que estou postando é muito interessante e de grande valia para nós, cristãos. É de interesse de todo cristão católico procurar saber aquilo que leva ao Céu e também, especialmente, o que deixa de levar.

Foto: ALERTA PARA TODAS AS ALMAS

O grito lancinante de uma alma » "A Carta do Além"
O Vidente Marcos Tadeu fez uma explanação no Cenáculo de 09.03.2014 sobre este livro.

Este texto que estou postando é muito interessante e de grande valia para nós, cristãos. É de interesse de todo cristão católico procurar saber aquilo que leva ao Céu e também, especialmente, o que deixa de levar.

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O autor da presente publicação, no original alemão, prefere conservar no anonimato, tanto a si como os demais personagens do acontecimento.

O escrito, entretanto, corre em prósperas edições, pelas mãos de leitores sempre mais numerosos. Não se pode lê-lo com indiferença ou só por curiosidade. Aos poucos a gente se vê, pessoalmente empenhado em uma valorização reflexa, a um tempo de juízo e de sentimento.

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Clara era uma moça, falecida ainda jovem, em um Convento da Alemanha. Entre os papéis que deixou, encontrou-se o seguinte manuscrito que publicamos, na íntegra, em versão portuguesa. 

Os grifos e anotações são nossos. 

==*=*=*== 

NIHIL OBSTAT

Sancti Pauli, 1-6-1967 
Sac. Joannes Roatta SSR

IMPRIMATUR 

Sancti Pauli, 9-6-1967 
Mons. Lafayette
Vig. Geral 

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MANUSCRITO:

Eu tinha uma amiga. Isto é, entramos em contato, por causa do escritório, onde trabalhávamos uma ao lado da outra, em uma firma comercial.

Mais tarde Anita se casou e nunca mais a vi. Afinal, reinava entre nós duas, desde o começo, mais cortesia do que propriamente amizade. Por isso mesmo, pouco senti sua ausência, quando ela, após seu casamento, foi morar em um quarteirão de vilas..., muito longe de minha casa.

Quando no outono de 1937, passava minhas férias às margens do lago de Garda, escreveu-me minha mãe, pelos fins da segunda semana de setembro: “veja, Anita N. morreu! Foi vítima de um acidente de automóvel. Foi sepultada ontem em Waldfriedholf, cemitério do bosque”.

Esta notícia me espantou. Sabia que Anita nunca fora muito religiosa. Estaria preparada, quando Deus, assim de improviso, a chamou?

Na manhã seguinte, assisti a santa missa por ela, na capela particular da pensão das freiras, onde estava hospedada, rezei fervorosamente pela paz de sua alma e até ofereci a Comunhão nesta intenção.

Mas, o dia todo senti um certo mal-estar que pela tarde aumentou ainda mais. Adormeci inquieta. Enfim, fui acordada por um violento bater à minha porta. Acendi a luz. O relógio, sobre o criado, marcava meia-noite e dez. Não vi ninguém. Nenhum barulho se ouvia pela casa. Somente o das ondas do lago de Garda que se quebravam monótonas contra a murada do jardim da pensão. De vento, não se ouvia nem um sopro. E no entanto, ao acordar tinha acreditado perceber, além das batidas da porta, um rumor de vento semelhante àquele que se produzia quando meu chefe de escritório, aborrecido, me passava, de mau jeito, alguma carta.

Refleti por um instante se devia levantar-me. “Tudo histórias..., disse resolutamente a mim mesma. — É a tua imaginação excitada depois daquele caso de morte”. Virei-me para o outro lado, rezei alguns “Pater” pelas almas do purgatório e procurei dormir...

Mas, senti-me irresistivelmente invadida por uma sensibilidade interior que se tornava sempre mais lúcida e nítida, enquanto ao redor de mim a profundidade da noite desvanecia em uma transparência indefinível que dava a mim mesma e a todas as coisas circunstantes, um contorno sem espaço, fora do comum.

Levantei-me alucinada e resolvi, mais depressa do que costumava, descer para a capela da casa, como todas as manhãs. Ao abrir a porta do quarto, tropecei em um maço de folhas soltas de papel de carta. Apanhá-las, reconhecer a caligrafia de Anita e dar um grito foi tudo a mesma coisa.

Tremendo, segurava as folhas na mão. Compreendia que em tal estado de espírito não seria capaz de rezar nem sequer um “Pai Nosso” e além disso, subiu-me um sufocamento asfixiante.

Não encontrei melhor recurso que sair ao ar livre. Arrumei um pouco o cabelo, joguei a carta na bolsa e saí de casa. Subi por um trilho que, além da estrada principal (a famosa Gardesana), vai em direção ao monte, entre oliveiras, jardins de residências e moitas de louros.

A manhã surgia luminosa. Outras vezes, a cada cem passos, eu me extasiava diante do magnífico panorama que dali se abre sobre o lago e sobre a ilha do Garda, bela como de fada.

O insondável azul da água me recreava sempre. Contemplava admirada o cinzento monte Baldo, que, do outro lado, se eleva lentamente, desde 64 até mais de 2.200 metros acima do nível do mar. Entretanto, agora, não tinha nenhum interesse por nada disso. Após um quarto de hora de caminho, me deixei cair, mecanicamente sobre um banco que se apóia entre dois ciprestes, onde, ainda no dia anterior, tinha lido, com tanto prazer, a “Jungfer Therese”, de Federer.[1]

Considerei, então, pela primeira vez, os ciprestes como árvores dos mortos; que, no passado, nas cidades do sul, onde frequentemente se vêm, não havia jamais suspeitado.

Agarrei a carta. Faltava a assinatura. Mas, era, com absoluta certeza, a caligrafia de Anita. Não faltava nem mesmo o grande rabisco ornamental do S e o T à francesa, que ela havia aprendido no escritório para aborrecer o Sr. Gr.

O estilo não era o dela. Ao menos, não falava como de costume, pois ela sabia conversar de maneira extraordinariamente amável e sorrir pelos olhos celestes, com seu belo narizinho amassado. Só quando discutíamos assuntos de religião podia tornar-se venenosa e tomar o tom duro desta carta. (E, julgando-a assim, experimento também a amargura de seu estilo áspero!)

A sua carta do outro mundo eu a reproduzo aqui, palavra por palavra, como a li, então. Dizia assim:

“Clara — não reze por mim! Estou condenada[2]. Se lh’o comunico e lh’o refiro mais longamente, não pense que o faça a título de amizade. Nós aqui não amamos a mais ninguém. Faço-o como que forçada. Faço-o como “parte daquela potência que sempre quer o Mal e faz o Bem”.[3]

Na verdade desejaria vê-la também chegar a este estado onde eu já me aportei para sempre.[4]

Não se aborreça com esta intenção. Nós aqui todos pensamos assim. Nossa vontade está petrificada no mal — nisto que vocês, justamente, chamam de “mal”. Mesmo quando nós fazemos algo de “bem” como eu agora, abrindo seus olhos sobre o inferno, isto não acontece com boa intenção.[5]

Lembra-se que há quatro anos nos conhecemos em...? Você tinha, então 23 anos, e estava ali havia já meio ano, quando eu cheguei. Você me livrou de alguns embaraços. Você me deu, como a principiante, bons conselhos. Mas, que quer dizer “bom”?

Eu louvava então o seu “amor ao próximo”. Ridículo! O seu auxílio derivava de pura beatice, como aliás, já o suspeitava desde aquele tempo.

Nós não conhecemos aqui nada de bom. Em ninguém. O tempo de minha juventude você o conhece. Algumas lacunas eu preencho aqui.

Conforme o plano de meus pais, para dizer a verdade, eu não deveria ter existido. “Aconteceu-lhes, porém, esta desgraça”. Minhas duas irmãs já tinham 14 e 15 anos quando eu nasci.

Antes não tivesse existido! Pudesse eu agora aniquilar-me e fugir destes tormentos! Nenhuma volúpia igualaria àquela com que deixaria a minha existência, como um vestido de cinzas que se perde no nada[6]. Mas, eu devo existir. Devo existir assim como me tornei: com uma existência falida.

Quando Papai e Mamãe, ainda jovens, se transferiram do campo para a cidade, ambos haviam perdido o contato com a igreja. Foi até melhor assim. Simpatizaram-se com pessoas afastadas da igreja. Conheceram-se em uma sala de bailes e, meio ano depois, “tiveram” que se casar.

Na cerimônia nupcial caiu sobre eles tanta (!) água benta que mamãe se contentava em ir à igreja, para a missa dominical, umas duas vezes por ano. Nunca me ensinou a rezar direito. Esgotava-se nos apertos da vida quotidiana, embora nossa situação não fosse desfavorável. Palavras como: rezar, missa, água benta, igreja, eu as escrevo com uma repugnância sem igual.

Detesto tudo isto como detesto quem frequenta a igreja, e, em geral, todos os homens e todas as coisas. De tudo, com efeito, nos advém tormento. Todo o conhecimento recebido na hora da morte, toda lembrança de coisas vividas ou sabidas é, para nós, uma chama ardente[7]. E todas as lembranças nos mostram aquele aspecto que nelas, era Graça. Que nós desprezamos. Que tormento é este! Nós não comemos, não dormimos, não andamos por nossos pés. Espiritualmente acorrentados, olhamos imbecilizados “com urros e ranger de dentes”[8] a nossa vida levada aos montes, odiando e atormentados!

Quer saber? - Nós aqui bebemos ódio como água. Também uns para com os outros[9]. Sobretudo, odiamos a Deus.

Quero que você entenda. Os santos no céu devem amá-Lo, porque eles O vêem sem véu, na sua fulgurante beleza. Isto os torna de tal maneira felizes que nem se pode descrever. Nós o sabemos, e este conhecimento nos torna furiosos.[10]

Os homens na terra que conhecem a Deus pela criação e pela revelação podem amá-Lo. Mas não estão obrigados a isto.

Aquele que tem fé — escrevo rangendo os dentes — que refletindo, contempla Cristo na Cruz, com os braços abertos, acabará por amá-Lo. Mas, aquele de quem Deus se aproxima só na desgraça, como punidor, como justo vingador, porque foi um dia, por ele repudiado, como acontece conosco — este não pode senão odiá-Lo[11]. Com todo o ímpeto de sua pérfida vontade. Eternamente. Por força da livre resolução de ser separado de Deus: resolução pela qual, morrendo, matamos nossa alma. Resolução que nem mesmo agora retiramos nem teremos, jamais, vontade de retirá-la.

Você compreende, agora, por que é que o inferno dura para sempre? Porque nossa obstinação jamais se desligará de nós.

Constrangida — acrescento que Deus é misericordioso até mesmo conosco. Digo “constrangida”, pois que, mesmo escrevendo espontaneamente esta carta, nem assim me é permitido mentir, como quereria. Muitas coisas escrevo no papel contra a minha vontade. Até mesmo o ímpeto de impropérios que gostaria de vomitar, eu o devo abafar. Deus foi misericordioso conosco não deixando esgotar na terra nossa malvada vontade como estávamos dispostos a fazer. Isto teria aumentado nossas culpas e nossas penas.

Ele nos fez morrer antes do tempo, como eu, ou fez interferir outras circunstâncias atenuantes. Agora, Ele se mostra misericordioso conosco, não nos obrigando a aproximar-nos d’Ele mais do que o estamos, neste remoto lugar infernal. Isto suaviza o tormento.[12]

Todo passo que me levasse mais perto de Deus me causaria uma pena maior do que aquela que traria a ti o aproximar-te de uma fogueira.

Você se espantou, quando eu, certa vez, durante um passeio, lhe contei que meu pai, alguns dias antes de minha primeira comunhão, me havia dito: “Anita, procure merecer um belo vestidinho, porque o resto é exagero e exibição”.

Pelo seu espanto, quase fiquei envergonhada. Agora, me rio disto.

A única coisa razoável naquela exibição era que só se admitia à Comunhão, aos doze anos. Eu, naquela época, já me sentia bastante atraída pelos divertimentos do mundo, de modo que, sem escrúpulos, punha de lado as coisas religiosas, e não dei grande importância à primeira comunhão. Agora, nos causa furor, que muitos meninos façam a primeira comunhão aos sete anos. Fazemos tudo para dar a entender ao povo, que deve faltar às crianças uma instrução adequada. Elas devem, antes, cometer alguns pecados mortais. Então a partícula branca não provoca nelas um tão grande dano como quando em seus corações vivem ainda, a fé, a esperança e a caridade. Chi! Esta coisa recebida no batismo. Você se lembra, como eu já havia sustentado na terra, tal opinião.

Fiz referência a meu pai. Ele estava sempre em atrito com mamãe. Fiz alusão a eles com você, apenas algumas vezes, porque me causavam vergonha. Coisa ridícula a vergonha do mal! para nós aqui, tudo é a mesma coisa.

Meus pais nem sequer dormiam mais no mesmo quarto, eu dormia com mamãe e papai no quarto do lado, onde ele podia entrar, livremente a qualquer hora da noite. Ele bebia muito; e, deste modo acabava com o nosso patrimônio. Minhas irmãs estavam ambas empregadas, e necessitavam, conforme diziam, do dinheiro que ganhavam. Mamãe começou a trabalhar para ganhar também alguma coisa.

No último ano de sua vida, papai maltratava muito mamãe quando ela não lhe queria dar alguma coisa. Para comigo foi sempre carinhoso.

Um dia — eu lhe contei e você ficou chocada com meu capricho (mas, você não ficou chocada com minhas referências?) — um dia, ele teve que levar de volta duas vezes, os sapatos que comprou para mim, porque a forma e os saltos não eram bem modernos.[13]

Na noite em que meu pai foi atacado de apoplexia mortal, aconteceu alguma coisa que eu, por receio de uma interpretação desagradável, nunca consegui contar-lhe: foi quando fui assaltada, pela primeira vez, por meu espírito atormentador de agora.

Dormia no quarto de minha mãe. Seus suspiros regulares indicam um sono profundo. Quando de repente escuto chamar-me pelo nome. Uma voz desconhecida me dizia: “Que será se papai morrer?”

Eu não gostava mais de meu pai, desde quando maltratava minha mãe, como afinal, eu não gostava, desde aquele tempo, absolutamente de ninguém, mas, era afeiçoada somente a algumas pessoas que eram boas para mim. Amor sem esperança de recompensa terrena existe somente nas almas em estado de graça. E eu não o possuía. Assim, respondi à misteriosa pergunta, sem ligar de onde viesse: “mas, não morre nunca!”

Após uma breve pausa, novamente a mesma pergunta claramente percebida. “Mas, não morre nunca” me escapou bruscamente da boca.

Pela terceira vez fui interrogada: “Que será se teu pai morrer?”

Apresentou-se-me à mente, como papai costumava chegar em casa quase sempre embriagado, como gritava, como maltratava mamãe e como nos havia reduzido a uma condição humilhante diante do povo. Então gritei aborrecida: “E, para ele é bom”.

Então, tudo sossegou. Na manhã seguinte, quando mamãe quis arrumar o quarto do papai, encontrou a porta fechada à chave. Pelo meio-dia resolvemos arrombar a porta. Meu pai, meio vestido, jazia morto sobre a cama. Ao ir buscar a bebida na adega, devia ter-lhe acontecido algum acidente. E, já se encontrava, havia muito tempo, adoentado.

(Teria Deus ligado à vontade de uma filha, para com a qual, aquele homem havia sido, de certo modo, bom, a ocasião para converter-se?)[14]

Marta K e você me induziram a entrar na “Associação das Moças”. Realmente, nunca ocultei que achava bastante sintonizadas com o costume paroquial, as instruções das duas presidentes, as Senhoras F. e G.

Os jogos eram divertidos, como você sabe, tive logo um lugar na diretoria. Gostava disso. Também os passeios me agradavam. Deixei-me até induzir, algumas vezes, a ir confessar e comungar. Para dizer a verdade, não tinha nada para confessar. Pensamentos e palavras, para mim, não tinham nenhuma importância. Para praticar ações grosseiras, eu não estava ainda bastante corrompida.

Uma vez você admoestou: “Ana, se você não reza mais, você se perderá”.

Eu, de fato, rezava pouco e, além disso, de muito má vontade. Agora vejo que, infelizmente, você tinha razão. Todos aqueles que se queimam no inferno é porque não rezam, ou não rezaram bastante.

A oração é o primeiro passo para Deus. E continua sendo o passo decisivo. Especialmente a oração àquela que foi a Mãe de Jesus Cristo, cujo nome nós não pronunciamos nunca[15]. A devoção a Ela, arranca ao demônio inúmeras almas que o pecado poria, infalivelmente, nas mãos dele.

Continuo a narração consumindo-me da raiva, e só porque devo.

Rezar é a coisa mais fácil que o homem pode fazer na terra[16]. E, justamente, a esta coisa facílima é que Deus ligou a salvação de cada um. A quem reza com perseverança ele, pouco a pouco, dá tanta luz e fortifica-o, de maneira tal, que no fim, mesmo o pecador mais empedernido, pode definitivamente se elevar. Ainda que estivesse mergulhado na lama até o pescoço.

Nos últimos anos de minha vida não rezei mais como devia, e assim fiquei privada das graças sem as quais ninguém pode se salvar.

Aqui não recebemos mais nenhuma graça. Ao contrário, mesmo que as recebêssemos, nós, cinicamente, as rejeitaríamos. Todas as oscilações da existência terrena terminaram nesta outra vida. Entre vocês, aí na terra, o homem pode subir do estado de pecado ao estado de graça. Da graça cair no pecado. Muitas vezes por fraqueza ou talvez por malícia. Com a morte, este subir e descer acaba porque tem sua raiz na imperfeição do homem livre. Agora, já atingimos o estado final. Já com o crescer dos anos as transformações se tornam mais raras.

No entanto, até à morte, se pode sempre converter para Deus ou voltar-lhe as costas. E, no entanto, o homem, como que arrastado pela corrente, antes do desenlace, com os últimos e fracos restos da vontade, se comporta como estava acostumado em vida. O hábito, bom ou mau, torna-se segunda natureza. Esta o arrasta consigo.[17] 

Assim aconteceu também comigo. Há anos eu vivia afastada de Deus. Por isso na última chamada da graça, me decidi contra Deus.

O fato de que eu pecasse frequentemente, para mim não foi fatal, mas, fatal foi que eu não quis mais ressurgir.

Você várias vezes me admoestou para ouvir pregações e ler livros de piedade. “Não tenho tempo” era a minha resposta ordinária. Não faltava mais nada para aumentar a minha incerteza interior!

Afinal, devo constatar isto: desde o momento em que a coisa já estava assim adiantada, pouco antes de minha saída da “Associação das Moças”, me teria sido imensamente duro tomar uma outra estrada. Eu me sentia insegura e infeliz. Mas, diante da conversão surgia uma muralha. Você não o deve ter percebido e considerava coisa tão simples que um dia me disse: “Mas, faça uma boa confissão, Ana, e tudo retoma seu lugar”. Eu sabia que teria sido mesmo assim. Mas, o mundo, o demônio e a carne me prendiam já muito fortemente em suas redes.

Ao influxo do demônio eu nunca dei crédito e agora atesto que ele influi fortemente nas pessoas que se encontram nas condições em que me encontrava então. Somente muitas orações de outros e mesmo minhas, unidas com sacrifícios e sofrimentos, teriam conseguido arrancar-me dele. E, isto, só aos poucos. Se existem poucos obsessos externamente, há uma infinidade de obsessos internamente. O demônio não pode roubar a vontade livre daqueles que se entregam ao seu influxo. Mas, como castigo de sua, por assim dizer, apostasia metódica de Deus, este, permite que o “maligno” se aninhe neles.

Eu odeio também o demônio. No entanto, ele me agrada porque procura arruinar vocês; ele e os seus satélites, ou espíritos caídos com ele, no princípio do tempo. Eles existem aos milhões. Vagabundeiam pela terra como um enxame de moscas e vocês nem o percebem.[18] 

Não compete a nós condenados a missão de ir tentar os homens. Isto é tarefa dos espíritos decaídos[19]. Verdadeiramente, isto aumenta mais ainda o seu tormento cada vez que eles arrastam cá para o inferno uma alma humana. Mas, o que é que não faz o ódio?[20]

Embora eu andasse por caminhos afastados de Deus, Deus sempre me seguia. Preparava o caminho para a graça com atos de caridade natural que eu fazia muitas vezes por inclinação do meu temperamento. Algumas vezes, Deus me atraía para alguma igreja. Então, eu sentia, como que, uma saudade.

Quando cuidava de mamãe adoentada, não obstante o trabalho do escritório durante o dia e de certo modo me sacrificava de verdade, estes acenos de Deus agiam poderosamente. Uma vez, na capela do Hospital, onde você me havia levado, durante o intervalo do meio-dia, senti dentro de mim alguma coisa que teria sido necessário apenas um passo para a minha conversão: e eu chorei!

Mas, ao depois, a alegria do mundo passava de novo, como uma torrente, sobre a graça. A semente se sufocava entre os espinhos.[21]

Com a declaração de que a religião é questão de sentimento, como sempre se dizia no escritório, atirei ao cesto também esta moção de graça, como todas as outras.

Certa vez, você me chamou a atenção porque em vez de uma genuflexão bem feita, fiz apenas uma desajeitada inclinação, dobrando o joelho. Você pensou que fosse preguiça. Não parecia sequer que você suspeitasse que eu desde aquele tempo, já não acreditava mais na presença de Cristo na Eucaristia.

Agora acredito, mas só naturalmente, como se acredita em um temporal, do qual decorrem os efeitos. Até então, eu estava instalada, propriamente, em uma religião a meu modo. Sustentava a opinião que entre nós, no escritório, era comum, que a alma após a morte reaparece em um outro ser. E deste modo, continuaria a peregrinar sem fim. Com isto, o angustiante problema do além era posto em seu lugar e ao mesmo tempo se tornava inofensivo para mim.

Porque você não me lembrou a parábola do rico epulão e do pobre Lázaro, em que o narrador, Cristo, manda, imediatamente, um para o inferno e outro para o céu?...[22]

Afinal, o que é que você teria conseguido? Nada, além do que conseguiram seus outros sermões de carolice!

Pouco a pouco, criei para mim mesma um deus. Bastante afastado de mim, para não ter que manter nenhuma relação com ele. Bastante vago para, conforme a necessidade, sem mudar minha religião, deixar-se assemelhar a um deus panteístico do mundo, ou então, para deixar-se poetizar como um deus solitário. Este deus não tinha nenhum céu para presentear-me e nenhum inferno para castigar-me. Eu o deixava em paz, e ele também a mim. Nisto consistia minha adoração a ele.

“A gente acredita, de boa vontade, no que nos agrada”. No correr dos anos, me conservei bastante convicta desta religião. Deste modo, podia-se viver. Somente uma coisa me teria quebrado a cabeça: uma longa e profunda dor. E esta não veio!

Compreendi agora o que significa: “Deus castiga aqueles que ele ama?”[23]

Era um domingo de julho, quando a Associação das Moças, organizou uma excursão a... O passeio me teria sido bem agradável. Mas, aqueles sermões insípidos... passar por beata...

Uma outra imagem bem diferente daquela de Nossa Senhora de... estava agora no altar do meu coração. Max N. um comerciário vizinho. Pouco tempo antes, havíamos algumas vezes transado juntos. Justamente para aquele domingo, ele me havia convidado para um passeio. Aquela com que ele costumava passear estava doente no hospital.

Ele havia compreendido que eu estava de olho nele. Casar-nos, eu ainda não pensava naquele tempo. Era realmente possível, mas, ele se comportava demasiadamente delicado com todas as moças. E, eu até aquela época, desejava um homem que fosse exclusivamente meu. Desejava, não só ser mulher, mas, mulher única. Um certo traquejo natural, de fato, sempre tive.

(É verdade! Anita, com toda a sua indiferença religiosa, tinha algo de nobre no seu procedimento. Eu me espanto ao pensar que também pessoas bem educadas podem ir para o inferno, quando são tão mal-educadas a ponto de fugir de Deus).[24]

Naquele passeio Max se derreteu em gentilezas. E não houve lugar para conversações padrescas, como entre vocês.

No dia seguinte, no escritório, você me fez reclamações por não ter ido com vocês a..., e eu lhe descrevi meu divertimento naquele domingo. Sua primeira pergunta foi: “Você assistiu à Missa?” “— Bobinha! Como podia ir à Missa se a saída já estava marcada para as seis!” Lembra-se ainda como eu, nervosa, acrescentei: “Deus não pensa nestas minúcias, como os padrecos de vocês!”

Agora devo confessar: Deus, não obstante sua infinita bondade, pesa as coisas com maior precisão do que todos eles (os padres).

Depois daquele primeiro passeio com Max, fui ainda uma vez à Associação: pelo Natal para celebrar a festa. Havia alguma coisa que me convidava a voltar. Mas, internamente, me sentia já, afastada de vocês.

Cinema, baile, passeios, se sucediam sem trégua. Max e eu brigamos sim, algumas vezes, mas, eu soube sempre acorrentá-lo de novo, em mim.

Insuportável tornou-se-me a outra pretendente que, saindo do hospital, procedeu como uma louca. Realmente para sorte minha. Pois, minha nobre calma impressionou tanto o Max que ele acabou decidindo que eu fosse a preferida. Eu soube enchê-la de ódio falando friamente: por fora, positiva, por dentro vomitando veneno.

Tais sentimentos e tal procedimento preparam-me, excelentemente, para o inferno. São diabólicos no sentido mais estrito da palavra.

Mas, por que lhe conto isto? Para relatar como me afastei definitivamente, de Deus.

Não que eu e Max, tenhamos, muitas vezes, chegado aos extremos da familiaridade. Eu compreendia que me teria rebaixado aos seus olhos, se me tivesse entregue, completamente, antes do tempo. Por isso, soube controlar-me. Mas, em si, toda vez que o julgava útil, estava sempre disposta a tudo. Devia conquistar Max. Para isso, nada era caro demais. Além disso, pouco a pouco nos amávamos, possuindo nós dois muitas e preciosas qualidades que nos faziam estimar um ao outro. Eu era hábil, inteligente, de agradável companhia. Assim segurei Max, fortemente na mão e consegui, ao menos nos últimos meses antes do casamento, ser a única a possuí-lo.

Nisto consistiu minha apostasia de Deus: elevar uma criatura à categoria de ídolo para mim. Em nenhuma outra coisa pode acontecer isto, de modo que abranja tudo, como no amor de uma pessoa de outro sexo, quando este amor fica encalhado nas satisfações terrenas.

É isto que forma o seu atrativo, o seu estímulo e o seu veneno. A “adoração” que eu tributava a mim mesma, na pessoa de Max, tornou-se para mim, religião vivida. Era o tempo em que, no escritório, eu me insurgia, venenosa, contra os igrejeiros, os padres, as indulgências, contra o resmungo dos rosários e outras bobagens.

Você procurou, mais ou menos argutamente, tomar a defesa de tais coisas. Sem desconfiar, aparentemente, que no mais íntimo do meu ser, não se tratava, na verdade, destas coisas.

Eu procurava, mais que tudo, um apoio para minha consciência — e tinha, então, necessidade de um tal sustento — para justificar, também com a razão a minha apostasia.

Afinal de contas, eu me revoltava contra Deus. Você não me compreendeu, considerando-me, ainda católica. Queria mesmo ser chamada assim; pagava até as taxas da igreja. Uma certa “contra-garantia” pensava, não devia prejudicar-me.

As suas respostas, pode ser que algumas vezes, tenham acertado o alvo. Para mim, nada adiantavam, porque você não devia ter razão. Por causa destas relações fictícias entre nós duas, é que foi mínimo o pesar de nossa separação, por ocasião de meu casamento. Antes do casamento confessei-me e comunguei ainda uma vez. Era obrigatório. Eu e meu marido, sobre este ponto, pensávamos do mesmo modo.

Por que não deveríamos satisfazer esta formalidade? Cumpramo-la também nós, como qualquer outra formalidade.

Você qualifica de indigna uma tal comunhão. Pois bem, depois daquela comunhão “indigna”, eu tive mais calma na consciência. Mas, também, foi a última.

A nossa vida conjugal transcorria, em geral, numa invejável harmonia. Em todos os pontos de vista tínhamos a mesma opinião. Até nisto: não queríamos arcar com o peso dos filhos. Realmente, meu marido, de boa vontade, teria tido um. Mais de um, não, é claro. No fim, eu soube desviá-lo também deste desejo.

Vestidos, móveis de luxo, salões de chá, passeios e viagens de carro e semelhantes distrações, me interessavam mais[25]. Foi um ano de prazer na terra aquele que transcorreu entre meu casamento e minha morte repentina.

Todo domingo, saíamos de carro ou íamos visitar os parentes de meu marido, (dos de minha mãe, agora me envergonhava). Estes flutuavam na superfície da existência, nem mais, nem menos que nós. Intimamente, é claro, nunca me sentia feliz, embora, externamente risse.

Havia, sempre, dentro de mim, alguma coisa de indeterminado que me roía. Teria querido que após a morte, a qual naturalmente, devia estar ainda muito longe, tudo acabasse.

Mas, é mesmo, como um dia, quando pequena, ouvi dizer na prática: que Deus premia toda obra boa que a gente faz e quando não a puder recompensar na outra vida, fá-lo na terra.

Inesperadamente, recebi uma herança da tia Lotte. Meu marido felizmente conseguiu elevar seus vencimentos a uma notável quantia. Assim, pude organizar nova residência de maneira atraente.

A religião não refletia mais, senão de longe, a sua luz pálida, fraca e duvidosa. Os bares da cidade, os hotéis em que passávamos durante as viagens, não nos levavam, de certo, para Deus. Todos os que frequentavam aqueles lugares, viviam como nós, “de fora para dentro” e não “de dentro para fora”. Se em viagens de férias visitávamos alguma igreja, procurávamos deleitar-nos com o conteúdo artístico das obras. O clima religioso que inspiravam, especialmente, aquelas da Idade Média, eu sabia neutralizar, criticando alguma circunstância secundária: um frade acanhado, ou mal vestido que nos guiava — o escândalo dos monges que queriam passar por santos e vendiam licores — o eterno repique de sinos para as funções sagradas só para ajuntar dinheiro...

Assim, soube, continuamente, espantar de mim a Graça, toda vez que ela batia à minha porta.

Deixava livre desabafo ao meu mau humor de modo particular sobre certas representações medievais do inferno, nos cemitérios ou em outros lugares, em que o demônio assa as almas em brasas vivas e incandescentes, enquanto seus companheiros, de longas caudas, arrastam pra cá novas vítimas. Clara! O inferno pode-se errar ao descrevê-lo, mas não se exagera nunca!

O fogo do inferno, eu sempre o ataquei decisivamente. Você sabe, como durante uma discussão a respeito, lhe coloquei um fósforo diante do nariz e lhe perguntei com sarcasmo: “tem este cheiro?” Você apagou, depressa a chama. Aqui ninguém a apaga. E, eu lhe digo: o fogo de que se fala na Bíblia não significa tormento de consciência, não. Fogo é fogo! E deve-se entender literalmente aquilo que disse Ele: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno!” Literalmente![26]

“Como pode o espírito ser atingido pelo fogo material?” Perguntará você.

Como pode sua alma sofrer, na terra, quando você coloca seu dedo no fogo? A alma, de fato, não queima. No entanto, que tormento experimenta o indivíduo todo! De modo análogo, nós não estamos espiritualmente ligados ao fogo, segundo a nossa natureza e segundo as nossas faculdades. Nossa alma está privada do seu natural “bater de asas”, nós não podemos pensar aquilo que queremos.[27]

Não olhe com espanto para estas linhas: este estado, que, para vocês, não significa nada, me queima sem me consumir. Nosso maior tormento consiste em saber que nós jamais veremos a Deus.

Como pode isto atormentar tanto, uma vez que na terra a gente fica tão indiferente? Enquanto o punhal está sobre a mesa nos deixa indiferente. Vê-se que está bem afiado, mas, não o experimentamos. Enfia este punhal na sua carne e você começará a gritar de dor. Nós agora sentimos a perda Deus, antes, somente, pensávamos nela.[28]

Nem todas as almas sofrem em igual medida. Com quanto maior maldade e quanto mais sistematicamente uma pessoa pecou, tanto mais grave pesa sobre ela a perda de Deus e tanto mais a sufoca a criatura de que ela abusou.

Os católicos condenados sofrem muito mais do que os de outras religiões, porque estes, geralmente, receberam e desprezaram mais graças e mais luz.

Quem teve mais conhecimento, sofre mais duramente do que quem conheceu menos. Quem pecou por malícia sofre mais agudamente do que aquele que cai por fraqueza. Mas, ninguém sofre mais do que mereceu. Oh! Se isso não fosse verdade, de modo que eu tivesse um motivo para odiar!

Você me disse um dia que ninguém vai para o inferno sem saber e que isto teria sido revelado, por uma santa.

Eu me ri disso. Mas, depois, me escondi atrás desta declaração: “qual nada, em caso de necessidade, haverá bastante tempo para voltar atrás” me dizia secretamente.

E é verdade. Realmente, antes de meu inesperado fim, eu não conhecia o inferno como ele é. Nenhum mortal o conhece. Mas, eu tinha plena consciência: “se morres, vais, no mundo do além, rápida como uma flecha, contra Deus. Sofrerás as consequências”.

Eu não dei um passo sequer para trás, como já disse, porque estava dominada pelo hábito. Impelida por aquela conformidade pela qual os homens quanto mais envelhecem tanto mais agem em uma mesma direção. Minha morte foi assim.

Há uma semana — falo conforme a conta de vocês, porque, com relação à dor, poderia dizer que já faz dez anos, que queimo no inferno ― há uma semana, portanto meu marido e eu fizemos um passeio de domingo, o último para mim.

O dia surgiu radiante. Sentia-me bem como nunca. Invadiu-me um sinistro sentimento de felicidade que serpejou em mim durante todo o dia. Quando, de repente, na volta, meu marido foi ofuscado por um carro que vinha em alta velocidade.

Perdeu o controle.

“Jesus” me saiu dos lábios, como um arrepio. Não como oração, só como grito.[29]

Uma dor lancinante invadiu-me toda — comparada com a de agora, uma coisa à toa. Logo, perdi os sentidos.

Estranho! Naquela manhã surgiu em mim de modo inexplicável este pensamento: “poderias ainda uma vez ir à missa”. Insistente como um pedido.

Claro e resoluto o meu “não” partiu o fio dos pensamentos: “com estas coisas é preciso acabar de uma vez. Arco com todas as consequências”. Agora as sofro.

Isto que aconteceu após minha morte, você, já o saberá. A sorte de meu marido, de minha mãe, tudo o que aconteceu a meu corpo, o desenrolar de meus funerais, são conhecidos por mim em todos os seus pormenores, mediante conhecimentos naturais, que nós temos aqui.

O que afinal acontece na terra, nós só o sabemos confusamente. Mas aquilo que de alguma maneira nos atinge de perto, nós o conhecemos. Assim, vejo também onde você passa seu tempo.[30]

Eu mesma me acordei, inesperadamente, da escuridão, no instante de minha morte. Vi-me como que inundada por uma luz deslumbrante. Foi no lugar mesmo onde jazia meu corpo. Aconteceu como em um teatro, quando na sala, de repente, se apagam as luzes, o pano de boca se rasga rumorosamente, e se abre uma cena inesperada, horrivelmente iluminada. A cena de minha vida. Como em um espelho minha alma se mostrou a mim mesma. As graças desprezadas da juventude até ao último “não” diante de Deus. Eu me senti como um assassino diante do qual, durante o processo judiciário, é levada sua vítima desfalecida.

— Arrepender-me? Nunca![31]

— Envergonhar-me? Tão pouco!

Eu não podia, porém nem sequer resistir-me diante dos olhos de Deus por mim rejeitado. Não sobrava senão um recurso: a fuga. Como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim, minha alma foi impelida para longe daquela vista de horror. Isto foi o juízo particular. O juiz invisível disse: “afasta-te de mim!” Então minha alma, como uma sombra amarela de enxofre precipitou no lugar do eterno tormento.[32]

Assim, terminava a carta de Anita, procedente do inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, de tão deformadas que estavam, A própria carta se incinerou nas minhas mãos.

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De repente — que acontecia?

Na rude linguagem daquelas linhas que tinha acreditado ler, ressoa um suave toque de sinos.

Acordei de sobressalto. Estava ainda na cama, em meu quarto![33] O clarão vermelho da manhã penetrava pela janela. Da paróquia se ouvia o toque da Ave-Maria. Não sabia capacitar-me do quanto havia acontecido!

Nunca senti tanto o conforto da saudação angélica como após um tal retorno à serenidade da manhã. Recitei, lentamente, as três Ave Marias. Então, tornou-se claríssimo: “A Ela te deves manter segura, à bendita Mãe do Senhor; deves honrar filialmente a Maria se não queres ter a sorte de uma alma que não verá jamais a Deus”.

Tremendo ainda, pela assustadora noite, vesti-me depressa e corri pelas escadas abaixo, para a capela da casa.

Meu coração batia até na garganta. As poucas hóspedes ajoelhadas mais perto de mim, me reparavam. Talvez, pensassem que eu estivesse tão excitada porque havia corrido pelas escadas.

Uma velha e bondosa senhora de Budapeste, já experimentada pelo sofrimento, fraca como uma criança, míope, mas perita nas coisas espirituais e fervorosa no servir a Deus, à tarde no jardim, me disse sorrindo: “Menina, Deus não quer ser servido pelo trem expresso!”

Mas, em seguida percebeu que alguma outra coisa me havia agitado e ainda me agitava. Tranquilizando-me, acrescentou:

“Nada te perturbe...” — você conhece o verso de Santa Teresa?
“Nada te perturbe.
Nada te amedronte.
Tudo passa,
Deus não se muda.
A paciência
Tudo consegue.
A quem possui Deus
Não falta nada:
Deus só basta.”[34]

Enquanto ela sussurrava estes versos, devagar e sem nenhuma tonalidade instrutiva, me pareceu que eu lia na minha alma: ― “Deus só basta!”[35]

Sim. Ele só me deve bastar aqui embaixo e no além. Eu quero, um dia, possuí-lo no além, mesmo que me custe aqui muitos sacrifícios. Não quero ir para o inferno.

==*=*=*==

A pessoa que fez a presente publicação no original alemão prefere conservar-se a si mesma, e os demais atores do acontecimento, na reserva do anonimato.

O escrito, entretanto, corre em prósperas edições, pelas mãos dos leitores sempre mais numerosos e, fere o espírito, de comoção, de piedade e de estremecimento.

Suas páginas vivas e espantosas encerram uma experiência, muito humana e comum da vida terrena, em que se defronta grande parte da complexa religiosidade contemporânea. Ao mesmo tempo, levantam o véu do mais fascinante e terrível mistério que nos espera.

Não se podem ler com indiferença ou só por curiosidade; a gente se vê, no fim, empenhado, pessoalmente, em uma revalorização reflexa de juízo e ao mesmo tempo de sentimento.

No drama que esta testemunha faz reviver, vem expressa, embora de maneira estritamente pessoal, toda a realidade humana e divina em que está se atualizando e desenvolvendo a nossa existência.

Sentimo-nos honrados em oferecer à sensibilidade dos leitores brasileiros este breve documento de vida.

Roma, março de 1952.

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[1] H. Federer (1866-1928), sacerdote, romancista popular; “Jovem Teresa”. 1913.
[2] Muitas vezes os homens, enganados pelo Maligno, se desvaneceram em seus pensamentos e mudaram a Verdade de Deus em mentira, servindo à criatura mais que ao Criador ou, vivendo e morrendo SEM DEUS neste mundo se expõem a CONDENAÇÃO ETERNA. (Conc. Vat. II Lg 16)
[3] Palavras de Meflstofele em “Fausto” de Goethe.
[4] Os condenados quereriam que todos os bons se condenassem. – Santo Tomás de Aquino – Summa Teológica (S. Th) Suplemento (Spl) Q 98, a. 4.
[5] Eles têm uma vontade deliberativa. Tal vontade neles é somente má! (S. Th. Spl. Q. 98, a. 1, r)
[6] O não existir... enquanto libertaria de uma vida de punição e de infelicidade... seria melhor para os condenados do que ser infelizes..., e assim preferiram não existir. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 3, r)
[7] Não há nada nos condenados que não lhes seja matéria e motivo rio pena. Assim (por exemplo) quando voltam a sua atenção para coisas conhecidas na vida. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 7, r)
[8] ... e os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá CHORO E RANGER DE DENTES. (Mt 13, 41)
[9] Nos condenados domina um ódio perfeito. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 4, r)
[10] Antes do dia do juízo, os condenados não veem os bem-aventurados a ponto de conhecer a natureza da sua glória, mas sabem somente que eles se encontram em uma glória inestimável. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 9, r)
[11] ... os condenados tem ódio a Deus porque Ele os castiga e lhes proíbe aquilo que esta¬ria de acordo com a própria maldade de sua vontade. Por isso o consideram somente como punidor e proibidor. Portanto, conhecendo a Deus nos efeitos da sua justiça, isto é, na sua punição, odeiam-no como odeiam os castigos que eles suportam. (S. Th. Spl. Q. 98 a. 8 ad 1)
[12] Na condenação dos réprobos aparece a misericórdia de Deus enquanto Ele os castiga menos do que mereceriam. (S. Th. I Q. 21 a. 4 ad 1)
[13] Os detalhes precedentes sobre o pai de Anita e o episódio seguinte são fatos comprovados.
[14] É um parêntesis do manuscrito.
[15] O nome de Maria, Mãe de Deus, não é pronunciado. Atestado pelos exorcistas em várias ocasiões. Em Fátima, Ela mostrou às crianças o horror do inferno e lembrou a arma poderosa que o cristão tem – a reza do Santo Rosário. (13 de julho 1917)
[16] Vós, portanto, deveis rezar assim: “Pai nosso, que estais no céu...” (Mt 6, 9)
[17] Porque onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração. O olho é a lâmpada do corpo... (Mt 6, 21)
[18] S. Pedro escreve: “Irmãos sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o demônio, vos circunda como um leão que ruge procurando a quem devorar” (1 Pedro 5, 8). O rugido não significa que satanás faça muito barulho com suas tentações, mas, ao contrário, exprime a avidez com que ele procura perder-nos.
S. Paulo escreve aos Efésios (6, 11-12): “Revesti-vos com a couraça de Deus, para poder enfrentar as insídias do demônio, pois que não é a nossa luta com o sangue e com a carne (contra os homens), mas, contra os Principados e as Potestades, contra os dominadores do mundo das trevas, contra os espíritos malignos do ar”. Aqui, se diz claramente que o maligno nos hostiliza com inúmeros satélites provenientes dos vários coros dos anjos decaídos (Principados, potestades etc.). (Conf. S. Th. l Q, 63, a. 9, ad 3). O demônio não deveria chamar-se: “dominador do mundo” se seu influxo na terra não fosse poderoso.
[19] Não compete aos réprobos levar à ruína os outros, este é ofício próprio do demônio. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 6, ad 2)
[20] Quanto mais aumenta o número dos danos tanto mais cresce o tormento de cada um. Estão porém tão cheios de ódio e de inveja, que eles preferem sofrer mais em companhia de muitos, do que sofrer menos, sozinhos. {S. Th. Spl. Q. 98, a. 4, ad 3)
[21] A semente que caiu entre espinhos representa aqueles que ouvem, mas são sufocados pelas preocupações, pelas RIQUEZAS e pelos PRAZERES da vida. (Lc 8,14)
[22] Jesus nos lembra bem claramente a sorte dos condenados. (Lc 6,19-31)
[23] Hb 12, 6 – Prov 3,12.
[24] Anotação do manuscrito.
[25] Larga é a porta e ESPAÇOSO O CAMINHO que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela. (Mt 7,13)
[26] ... apartar-nos para o fogo eterno... (Conc. Vat II LG 48)
[27] O logo do Inferno atormenta o espírito impedindo-o de seguir a sua vontade. Este, (o espírito) não pode agir onde quer e como quer. (S. Th. Spl. Q. 79, a. 3 r.)
[28] Estar separado de Deus é um castigo tão grande quanto grande é o próprio Deus. (Trecho atribuído a Santo Agostinho).
[29] Jesses - corruptela da Jesus, usado frequentemente entra algumas populações de lín¬gua alemã.
[30] As almas dos que morreram não tem um conhecimento certo e distinto de todas as coisas naturais, mas, somente, um conhecimento genérico e confuso. (S. Th. I Q. 89, a. 3 r.)
[31] Os maus propriamente não se arrependem dos pecados, porque estão presos ao pecado com uma vontade pérfida. Porém, sentem desprazer enquanto são atormentados pela pena do pecado. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 2 r.)
[32] Hervé - Praelect Theol. Dogm. 12a edição – (Paris, 1934), IV n°694: “É certo, e conforme Suarez até artigo de fé, que o Inferno é um lugar determinado”. A eternidade das penas do inferno é verdade de fé; talvez, a mais terrível de todas. Conf. na Escritura Sagrada: Mal 25, 41 e 46; 2ª.Tess. 1, 9; Juízes, 5, 13; Apoc 14, 11 e 20, 10. Todos trechos inconfutáveis em que a palavrinha “eterno” não se pode mudar em “longo”. Se não fosse permitido ilustrar esta verdade de fé com um fato particular, nem sequer o Divino Salvador teria narrado a parábola do rico Epulão e do pobre Lázaro. Lá ele fez, precisamente o mesmo que se conta aqui: descreveu a grandes pinceladas o inferno e como se vai para lá. Não por espírito de sensacionalismo, mas impelido pela mesma intenção que deu origem a esta publicação: intenção expressa naquelas palavras: “desçamos vivos ao inferno, para não descer lá morrendo”. Esta expressão é uma paráfrase do v. 16 do Salmo 54: “Caia a morte sobre eles e desçam vivos aos Infernos”. “Descendant viventes ne descendant morientes”, que se encontra em Gullaume de Saint-Thirry, meditativae orationes, Med. VI, Ed. M. M. Davy, Paris 1934, pág. 156 -160 e na carta ad fratresde Monte Del, do mesmo autor, Ed. M. M. Davy. Un traité de la vie solitaire pág. 79, Paris, 1940, obra outrora atribuída a São Bernardo.
[33] De Deus pode depender, alguma vez, a causa espiritual do sonho. Ele pelo ministério dos Anjos revela algumas coisas aos homens mediante os “sonhos”. De fato também na agiografia, frequentemente, o sonho serve de estímulo providencial para obras boas e grandes. (S. Th. Il-ll Q. 95, a. 6)
[34] Obras de Santa Teresa d’Ávila da autoria do P. Camillo Mella S. J. (Modena, 1884, t. VII, pág. 200).
[35] Procurai, portanto, primeiro o Reino de Deus e sua justiça. (Mt 6, 33)

VÍDEO DESTE CENÁCULO:
http://www.apparitionstv.com/v09-03-2014.php

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O autor da presente publicação, no original alemão, prefere conservar no anonimato, tanto a si como os demais personagens do acontecimento.

O escrito, entretanto, corre em prósperas edições, pelas mãos de leitores sempre mais numerosos. Não se pode lê-lo com indiferença ou só por curiosidade. Aos poucos a gente se vê, pessoalmente empenhado em uma valorização reflexa, a um tempo de juízo e de sentimento.



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Clara era uma moça, falecida ainda jovem, em um Convento da Alemanha. Entre os papéis que deixou, encontrou-se o seguinte manuscrito que publicamos, na íntegra, em versão portuguesa.

Os grifos e anotações são nossos.
 

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NIHIL OBSTAT

Sancti Pauli, 1-6-1967
 
Sac. Joannes Roatta SSR

IMPRIMATUR
 

Sancti Pauli, 9-6-1967
 
Mons. Lafayette
Vig. Geral 


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MANUSCRITO:

Eu tinha uma amiga. Isto é, entramos em contato, por causa do escritório, onde trabalhávamos uma ao lado da outra, em uma firma comercial.

Mais tarde Anita se casou e nunca mais a vi. Afinal, reinava entre nós duas, desde o começo, mais cortesia do que propriamente amizade. Por isso mesmo, pouco senti sua ausência, quando ela, após seu casamento, foi morar em um quarteirão de vilas..., muito longe de minha casa.

Quando no outono de 1937, passava minhas férias às margens do lago de Garda, escreveu-me minha mãe, pelos fins da segunda semana de setembro: “veja, Anita N. morreu! Foi vítima de um acidente de automóvel. Foi sepultada ontem em Waldfriedholf, cemitério do bosque”.

Esta notícia me espantou. Sabia que Anita nunca fora muito religiosa. Estaria preparada, quando Deus, assim de improviso, a chamou?

Na manhã seguinte, assisti a santa missa por ela, na capela particular da pensão das freiras, onde estava hospedada, rezei fervorosamente pela paz de sua alma e até ofereci a Comunhão nesta intenção.

Mas, o dia todo senti um certo mal-estar que pela tarde aumentou ainda mais. Adormeci inquieta. Enfim, fui acordada por um violento bater à minha porta. Acendi a luz. O relógio, sobre o criado, marcava meia-noite e dez. Não vi ninguém. Nenhum barulho se ouvia pela casa. Somente o das ondas do lago de Garda que se quebravam monótonas contra a murada do jardim da pensão. De vento, não se ouvia nem um sopro. E no entanto, ao acordar tinha acreditado perceber, além das batidas da porta, um rumor de vento semelhante àquele que se produzia quando meu chefe de escritório, aborrecido, me passava, de mau jeito, alguma carta.

Refleti por um instante se devia levantar-me. “Tudo histórias..., disse resolutamente a mim mesma. — É a tua imaginação excitada depois daquele caso de morte”. Virei-me para o outro lado, rezei alguns “Pater” pelas almas do purgatório e procurei dormir...

Mas, senti-me irresistivelmente invadida por uma sensibilidade interior que se tornava sempre mais lúcida e nítida, enquanto ao redor de mim a profundidade da noite desvanecia em uma transparência indefinível que dava a mim mesma e a todas as coisas circunstantes, um contorno sem espaço, fora do comum.

Levantei-me alucinada e resolvi, mais depressa do que costumava, descer para a capela da casa, como todas as manhãs. Ao abrir a porta do quarto, tropecei em um maço de folhas soltas de papel de carta. Apanhá-las, reconhecer a caligrafia de Anita e dar um grito foi tudo a mesma coisa.

Tremendo, segurava as folhas na mão. Compreendia que em tal estado de espírito não seria capaz de rezar nem sequer um “Pai Nosso” e além disso, subiu-me um sufocamento asfixiante.

Não encontrei melhor recurso que sair ao ar livre. Arrumei um pouco o cabelo, joguei a carta na bolsa e saí de casa. Subi por um trilho que, além da estrada principal (a famosa Gardesana), vai em direção ao monte, entre oliveiras, jardins de residências e moitas de louros.

A manhã surgia luminosa. Outras vezes, a cada cem passos, eu me extasiava diante do magnífico panorama que dali se abre sobre o lago e sobre a ilha do Garda, bela como de fada.

O insondável azul da água me recreava sempre. Contemplava admirada o cinzento monte Baldo, que, do outro lado, se eleva lentamente, desde 64 até mais de 2.200 metros acima do nível do mar. Entretanto, agora, não tinha nenhum interesse por nada disso. Após um quarto de hora de caminho, me deixei cair, mecanicamente sobre um banco que se apóia entre dois ciprestes, onde, ainda no dia anterior, tinha lido, com tanto prazer, a “Jungfer Therese”, de Federer.[1]

Considerei, então, pela primeira vez, os ciprestes como árvores dos mortos; que, no passado, nas cidades do sul, onde frequentemente se vêm, não havia jamais suspeitado.

Agarrei a carta. Faltava a assinatura. Mas, era, com absoluta certeza, a caligrafia de Anita. Não faltava nem mesmo o grande rabisco ornamental do S e o T à francesa, que ela havia aprendido no escritório para aborrecer o Sr. Gr.

O estilo não era o dela. Ao menos, não falava como de costume, pois ela sabia conversar de maneira extraordinariamente amável e sorrir pelos olhos celestes, com seu belo narizinho amassado. Só quando discutíamos assuntos de religião podia tornar-se venenosa e tomar o tom duro desta carta. (E, julgando-a assim, experimento também a amargura de seu estilo áspero!)

A sua carta do outro mundo eu a reproduzo aqui, palavra por palavra, como a li, então. Dizia assim:

“Clara — não reze por mim! Estou condenada[2]. Se lh’o comunico e lh’o refiro mais longamente, não pense que o faça a título de amizade. Nós aqui não amamos a mais ninguém. Faço-o como que forçada. Faço-o como “parte daquela potência que sempre quer o Mal e faz o Bem”.[3]

Na verdade desejaria vê-la também chegar a este estado onde eu já me aportei para sempre.[4]

Não se aborreça com esta intenção. Nós aqui todos pensamos assim. Nossa vontade está petrificada no mal — nisto que vocês, justamente, chamam de “mal”. Mesmo quando nós fazemos algo de “bem” como eu agora, abrindo seus olhos sobre o inferno, isto não acontece com boa intenção.[5]

Lembra-se que há quatro anos nos conhecemos em...? Você tinha, então 23 anos, e estava ali havia já meio ano, quando eu cheguei. Você me livrou de alguns embaraços. Você me deu, como a principiante, bons conselhos. Mas, que quer dizer “bom”?

Eu louvava então o seu “amor ao próximo”. Ridículo! O seu auxílio derivava de pura beatice, como aliás, já o suspeitava desde aquele tempo.

Nós não conhecemos aqui nada de bom. Em ninguém. O tempo de minha juventude você o conhece. Algumas lacunas eu preencho aqui.

Conforme o plano de meus pais, para dizer a verdade, eu não deveria ter existido. “Aconteceu-lhes, porém, esta desgraça”. Minhas duas irmãs já tinham 14 e 15 anos quando eu nasci.

Antes não tivesse existido! Pudesse eu agora aniquilar-me e fugir destes tormentos! Nenhuma volúpia igualaria àquela com que deixaria a minha existência, como um vestido de cinzas que se perde no nada[6]. Mas, eu devo existir. Devo existir assim como me tornei: com uma existência falida.

Quando Papai e Mamãe, ainda jovens, se transferiram do campo para a cidade, ambos haviam perdido o contato com a igreja. Foi até melhor assim. Simpatizaram-se com pessoas afastadas da igreja. Conheceram-se em uma sala de bailes e, meio ano depois, “tiveram” que se casar.

Na cerimônia nupcial caiu sobre eles tanta (!) água benta que mamãe se contentava em ir à igreja, para a missa dominical, umas duas vezes por ano. Nunca me ensinou a rezar direito. Esgotava-se nos apertos da vida quotidiana, embora nossa situação não fosse desfavorável. Palavras como: rezar, missa, água benta, igreja, eu as escrevo com uma repugnância sem igual.

Detesto tudo isto como detesto quem frequenta a igreja, e, em geral, todos os homens e todas as coisas. De tudo, com efeito, nos advém tormento. Todo o conhecimento recebido na hora da morte, toda lembrança de coisas vividas ou sabidas é, para nós, uma chama ardente[7]. E todas as lembranças nos mostram aquele aspecto que nelas, era Graça. Que nós desprezamos. Que tormento é este! Nós não comemos, não dormimos, não andamos por nossos pés. Espiritualmente acorrentados, olhamos imbecilizados “com urros e ranger de dentes”[8] a nossa vida levada aos montes, odiando e atormentados!

Quer saber? - Nós aqui bebemos ódio como água. Também uns para com os outros[9]. Sobretudo, odiamos a Deus.

Quero que você entenda. Os santos no céu devem amá-Lo, porque eles O vêem sem véu, na sua fulgurante beleza. Isto os torna de tal maneira felizes que nem se pode descrever. Nós o sabemos, e este conhecimento nos torna furiosos.[10]

Os homens na terra que conhecem a Deus pela criação e pela revelação podem amá-Lo. Mas não estão obrigados a isto.

Aquele que tem fé — escrevo rangendo os dentes — que refletindo, contempla Cristo na Cruz, com os braços abertos, acabará por amá-Lo. Mas, aquele de quem Deus se aproxima só na desgraça, como punidor, como justo vingador, porque foi um dia, por ele repudiado, como acontece conosco — este não pode senão odiá-Lo[11]. Com todo o ímpeto de sua pérfida vontade. Eternamente. Por força da livre resolução de ser separado de Deus: resolução pela qual, morrendo, matamos nossa alma. Resolução que nem mesmo agora retiramos nem teremos, jamais, vontade de retirá-la.

Você compreende, agora, por que é que o inferno dura para sempre? Porque nossa obstinação jamais se desligará de nós.

Constrangida — acrescento que Deus é misericordioso até mesmo conosco. Digo “constrangida”, pois que, mesmo escrevendo espontaneamente esta carta, nem assim me é permitido mentir, como quereria. Muitas coisas escrevo no papel contra a minha vontade. Até mesmo o ímpeto de impropérios que gostaria de vomitar, eu o devo abafar. Deus foi misericordioso conosco não deixando esgotar na terra nossa malvada vontade como estávamos dispostos a fazer. Isto teria aumentado nossas culpas e nossas penas.

Ele nos fez morrer antes do tempo, como eu, ou fez interferir outras circunstâncias atenuantes. Agora, Ele se mostra misericordioso conosco, não nos obrigando a aproximar-nos d’Ele mais do que o estamos, neste remoto lugar infernal. Isto suaviza o tormento.[12]

Todo passo que me levasse mais perto de Deus me causaria uma pena maior do que aquela que traria a ti o aproximar-te de uma fogueira.

Você se espantou, quando eu, certa vez, durante um passeio, lhe contei que meu pai, alguns dias antes de minha primeira comunhão, me havia dito: “Anita, procure merecer um belo vestidinho, porque o resto é exagero e exibição”.

Pelo seu espanto, quase fiquei envergonhada. Agora, me rio disto.

A única coisa razoável naquela exibição era que só se admitia à Comunhão, aos doze anos. Eu, naquela época, já me sentia bastante atraída pelos divertimentos do mundo, de modo que, sem escrúpulos, punha de lado as coisas religiosas, e não dei grande importância à primeira comunhão. Agora, nos causa furor, que muitos meninos façam a primeira comunhão aos sete anos. Fazemos tudo para dar a entender ao povo, que deve faltar às crianças uma instrução adequada. Elas devem, antes, cometer alguns pecados mortais. Então a partícula branca não provoca nelas um tão grande dano como quando em seus corações vivem ainda, a fé, a esperança e a caridade. Chi! Esta coisa recebida no batismo. Você se lembra, como eu já havia sustentado na terra, tal opinião.

Fiz referência a meu pai. Ele estava sempre em atrito com mamãe. Fiz alusão a eles com você, apenas algumas vezes, porque me causavam vergonha. Coisa ridícula a vergonha do mal! para nós aqui, tudo é a mesma coisa.

Meus pais nem sequer dormiam mais no mesmo quarto, eu dormia com mamãe e papai no quarto do lado, onde ele podia entrar, livremente a qualquer hora da noite. Ele bebia muito; e, deste modo acabava com o nosso patrimônio. Minhas irmãs estavam ambas empregadas, e necessitavam, conforme diziam, do dinheiro que ganhavam. Mamãe começou a trabalhar para ganhar também alguma coisa.

No último ano de sua vida, papai maltratava muito mamãe quando ela não lhe queria dar alguma coisa. Para comigo foi sempre carinhoso.

Um dia — eu lhe contei e você ficou chocada com meu capricho (mas, você não ficou chocada com minhas referências?) — um dia, ele teve que levar de volta duas vezes, os sapatos que comprou para mim, porque a forma e os saltos não eram bem modernos.[13]

Na noite em que meu pai foi atacado de apoplexia mortal, aconteceu alguma coisa que eu, por receio de uma interpretação desagradável, nunca consegui contar-lhe: foi quando fui assaltada, pela primeira vez, por meu espírito atormentador de agora.

Dormia no quarto de minha mãe. Seus suspiros regulares indicam um sono profundo. Quando de repente escuto chamar-me pelo nome. Uma voz desconhecida me dizia: “Que será se papai morrer?”

Eu não gostava mais de meu pai, desde quando maltratava minha mãe, como afinal, eu não gostava, desde aquele tempo, absolutamente de ninguém, mas, era afeiçoada somente a algumas pessoas que eram boas para mim. Amor sem esperança de recompensa terrena existe somente nas almas em estado de graça. E eu não o possuía. Assim, respondi à misteriosa pergunta, sem ligar de onde viesse: “mas, não morre nunca!”

Após uma breve pausa, novamente a mesma pergunta claramente percebida. “Mas, não morre nunca” me escapou bruscamente da boca.

Pela terceira vez fui interrogada: “Que será se teu pai morrer?”

Apresentou-se-me à mente, como papai costumava chegar em casa quase sempre embriagado, como gritava, como maltratava mamãe e como nos havia reduzido a uma condição humilhante diante do povo. Então gritei aborrecida: “E, para ele é bom”.

Então, tudo sossegou. Na manhã seguinte, quando mamãe quis arrumar o quarto do papai, encontrou a porta fechada à chave. Pelo meio-dia resolvemos arrombar a porta. Meu pai, meio vestido, jazia morto sobre a cama. Ao ir buscar a bebida na adega, devia ter-lhe acontecido algum acidente. E, já se encontrava, havia muito tempo, adoentado.

(Teria Deus ligado à vontade de uma filha, para com a qual, aquele homem havia sido, de certo modo, bom, a ocasião para converter-se?)[14]

Marta K e você me induziram a entrar na “Associação das Moças”. Realmente, nunca ocultei que achava bastante sintonizadas com o costume paroquial, as instruções das duas presidentes, as Senhoras F. e G.

Os jogos eram divertidos, como você sabe, tive logo um lugar na diretoria. Gostava disso. Também os passeios me agradavam. Deixei-me até induzir, algumas vezes, a ir confessar e comungar. Para dizer a verdade, não tinha nada para confessar. Pensamentos e palavras, para mim, não tinham nenhuma importância. Para praticar ações grosseiras, eu não estava ainda bastante corrompida.

Uma vez você admoestou: “Ana, se você não reza mais, você se perderá”.

Eu, de fato, rezava pouco e, além disso, de muito má vontade. Agora vejo que, infelizmente, você tinha razão. Todos aqueles que se queimam no inferno é porque não rezam, ou não rezaram bastante.

A oração é o primeiro passo para Deus. E continua sendo o passo decisivo. Especialmente a oração àquela que foi a Mãe de Jesus Cristo, cujo nome nós não pronunciamos nunca[15]. A devoção a Ela, arranca ao demônio inúmeras almas que o pecado poria, infalivelmente, nas mãos dele.

Continuo a narração consumindo-me da raiva, e só porque devo.

Rezar é a coisa mais fácil que o homem pode fazer na terra[16]. E, justamente, a esta coisa facílima é que Deus ligou a salvação de cada um. A quem reza com perseverança ele, pouco a pouco, dá tanta luz e fortifica-o, de maneira tal, que no fim, mesmo o pecador mais empedernido, pode definitivamente se elevar. Ainda que estivesse mergulhado na lama até o pescoço.

Nos últimos anos de minha vida não rezei mais como devia, e assim fiquei privada das graças sem as quais ninguém pode se salvar.

Aqui não recebemos mais nenhuma graça. Ao contrário, mesmo que as recebêssemos, nós, cinicamente, as rejeitaríamos. Todas as oscilações da existência terrena terminaram nesta outra vida. Entre vocês, aí na terra, o homem pode subir do estado de pecado ao estado de graça. Da graça cair no pecado. Muitas vezes por fraqueza ou talvez por malícia. Com a morte, este subir e descer acaba porque tem sua raiz na imperfeição do homem livre. Agora, já atingimos o estado final. Já com o crescer dos anos as transformações se tornam mais raras.

No entanto, até à morte, se pode sempre converter para Deus ou voltar-lhe as costas. E, no entanto, o homem, como que arrastado pela corrente, antes do desenlace, com os últimos e fracos restos da vontade, se comporta como estava acostumado em vida. O hábito, bom ou mau, torna-se segunda natureza. Esta o arrasta consigo.[17] 

Assim aconteceu também comigo. Há anos eu vivia afastada de Deus. Por isso na última chamada da graça, me decidi contra Deus.

O fato de que eu pecasse frequentemente, para mim não foi fatal, mas, fatal foi que eu não quis mais ressurgir.

Você várias vezes me admoestou para ouvir pregações e ler livros de piedade. “Não tenho tempo” era a minha resposta ordinária. Não faltava mais nada para aumentar a minha incerteza interior!

Afinal, devo constatar isto: desde o momento em que a coisa já estava assim adiantada, pouco antes de minha saída da “Associação das Moças”, me teria sido imensamente duro tomar uma outra estrada. Eu me sentia insegura e infeliz. Mas, diante da conversão surgia uma muralha. Você não o deve ter percebido e considerava coisa tão simples que um dia me disse: “Mas, faça uma boa confissão, Ana, e tudo retoma seu lugar”. Eu sabia que teria sido mesmo assim. Mas, o mundo, o demônio e a carne me prendiam já muito fortemente em suas redes.

Ao influxo do demônio eu nunca dei crédito e agora atesto que ele influi fortemente nas pessoas que se encontram nas condições em que me encontrava então. Somente muitas orações de outros e mesmo minhas, unidas com sacrifícios e sofrimentos, teriam conseguido arrancar-me dele. E, isto, só aos poucos. Se existem poucos obsessos externamente, há uma infinidade de obsessos internamente. O demônio não pode roubar a vontade livre daqueles que se entregam ao seu influxo. Mas, como castigo de sua, por assim dizer, apostasia metódica de Deus, este, permite que o “maligno” se aninhe neles.

Eu odeio também o demônio. No entanto, ele me agrada porque procura arruinar vocês; ele e os seus satélites, ou espíritos caídos com ele, no princípio do tempo. Eles existem aos milhões. Vagabundeiam pela terra como um enxame de moscas e vocês nem o percebem.[18] 

Não compete a nós condenados a missão de ir tentar os homens. Isto é tarefa dos espíritos decaídos[19]. Verdadeiramente, isto aumenta mais ainda o seu tormento cada vez que eles arrastam cá para o inferno uma alma humana. Mas, o que é que não faz o ódio?[20]

Embora eu andasse por caminhos afastados de Deus, Deus sempre me seguia. Preparava o caminho para a graça com atos de caridade natural que eu fazia muitas vezes por inclinação do meu temperamento. Algumas vezes, Deus me atraía para alguma igreja. Então, eu sentia, como que, uma saudade.

Quando cuidava de mamãe adoentada, não obstante o trabalho do escritório durante o dia e de certo modo me sacrificava de verdade, estes acenos de Deus agiam poderosamente. Uma vez, na capela do Hospital, onde você me havia levado, durante o intervalo do meio-dia, senti dentro de mim alguma coisa que teria sido necessário apenas um passo para a minha conversão: e eu chorei!

Mas, ao depois, a alegria do mundo passava de novo, como uma torrente, sobre a graça. A semente se sufocava entre os espinhos.[21]

Com a declaração de que a religião é questão de sentimento, como sempre se dizia no escritório, atirei ao cesto também esta moção de graça, como todas as outras.

Certa vez, você me chamou a atenção porque em vez de uma genuflexão bem feita, fiz apenas uma desajeitada inclinação, dobrando o joelho. Você pensou que fosse preguiça. Não parecia sequer que você suspeitasse que eu desde aquele tempo, já não acreditava mais na presença de Cristo na Eucaristia.

Agora acredito, mas só naturalmente, como se acredita em um temporal, do qual decorrem os efeitos. Até então, eu estava instalada, propriamente, em uma religião a meu modo. Sustentava a opinião que entre nós, no escritório, era comum, que a alma após a morte reaparece em um outro ser. E deste modo, continuaria a peregrinar sem fim. Com isto, o angustiante problema do além era posto em seu lugar e ao mesmo tempo se tornava inofensivo para mim.

Porque você não me lembrou a parábola do rico epulão e do pobre Lázaro, em que o narrador, Cristo, manda, imediatamente, um para o inferno e outro para o céu?...[22]

Afinal, o que é que você teria conseguido? Nada, além do que conseguiram seus outros sermões de carolice!

Pouco a pouco, criei para mim mesma um deus. Bastante afastado de mim, para não ter que manter nenhuma relação com ele. Bastante vago para, conforme a necessidade, sem mudar minha religião, deixar-se assemelhar a um deus panteístico do mundo, ou então, para deixar-se poetizar como um deus solitário. Este deus não tinha nenhum céu para presentear-me e nenhum inferno para castigar-me. Eu o deixava em paz, e ele também a mim. Nisto consistia minha adoração a ele.

“A gente acredita, de boa vontade, no que nos agrada”. No correr dos anos, me conservei bastante convicta desta religião. Deste modo, podia-se viver. Somente uma coisa me teria quebrado a cabeça: uma longa e profunda dor. E esta não veio!

Compreendi agora o que significa: “Deus castiga aqueles que ele ama?”[23]

Era um domingo de julho, quando a Associação das Moças, organizou uma excursão a... O passeio me teria sido bem agradável. Mas, aqueles sermões insípidos... passar por beata...

Uma outra imagem bem diferente daquela de Nossa Senhora de... estava agora no altar do meu coração. Max N. um comerciário vizinho. Pouco tempo antes, havíamos algumas vezes transado juntos. Justamente para aquele domingo, ele me havia convidado para um passeio. Aquela com que ele costumava passear estava doente no hospital.

Ele havia compreendido que eu estava de olho nele. Casar-nos, eu ainda não pensava naquele tempo. Era realmente possível, mas, ele se comportava demasiadamente delicado com todas as moças. E, eu até aquela época, desejava um homem que fosse exclusivamente meu. Desejava, não só ser mulher, mas, mulher única. Um certo traquejo natural, de fato, sempre tive.

(É verdade! Anita, com toda a sua indiferença religiosa, tinha algo de nobre no seu procedimento. Eu me espanto ao pensar que também pessoas bem educadas podem ir para o inferno, quando são tão mal-educadas a ponto de fugir de Deus).[24]

Naquele passeio Max se derreteu em gentilezas. E não houve lugar para conversações padrescas, como entre vocês.

No dia seguinte, no escritório, você me fez reclamações por não ter ido com vocês a..., e eu lhe descrevi meu divertimento naquele domingo. Sua primeira pergunta foi: “Você assistiu à Missa?” “— Bobinha! Como podia ir à Missa se a saída já estava marcada para as seis!” Lembra-se ainda como eu, nervosa, acrescentei: “Deus não pensa nestas minúcias, como os padrecos de vocês!”

Agora devo confessar: Deus, não obstante sua infinita bondade, pesa as coisas com maior precisão do que todos eles (os padres).

Depois daquele primeiro passeio com Max, fui ainda uma vez à Associação: pelo Natal para celebrar a festa. Havia alguma coisa que me convidava a voltar. Mas, internamente, me sentia já, afastada de vocês.

Cinema, baile, passeios, se sucediam sem trégua. Max e eu brigamos sim, algumas vezes, mas, eu soube sempre acorrentá-lo de novo, em mim.

Insuportável tornou-se-me a outra pretendente que, saindo do hospital, procedeu como uma louca. Realmente para sorte minha. Pois, minha nobre calma impressionou tanto o Max que ele acabou decidindo que eu fosse a preferida. Eu soube enchê-la de ódio falando friamente: por fora, positiva, por dentro vomitando veneno.

Tais sentimentos e tal procedimento preparam-me, excelentemente, para o inferno. São diabólicos no sentido mais estrito da palavra.

Mas, por que lhe conto isto? Para relatar como me afastei definitivamente, de Deus.

Não que eu e Max, tenhamos, muitas vezes, chegado aos extremos da familiaridade. Eu compreendia que me teria rebaixado aos seus olhos, se me tivesse entregue, completamente, antes do tempo. Por isso, soube controlar-me. Mas, em si, toda vez que o julgava útil, estava sempre disposta a tudo. Devia conquistar Max. Para isso, nada era caro demais. Além disso, pouco a pouco nos amávamos, possuindo nós dois muitas e preciosas qualidades que nos faziam estimar um ao outro. Eu era hábil, inteligente, de agradável companhia. Assim segurei Max, fortemente na mão e consegui, ao menos nos últimos meses antes do casamento, ser a única a possuí-lo.

Nisto consistiu minha apostasia de Deus: elevar uma criatura à categoria de ídolo para mim. Em nenhuma outra coisa pode acontecer isto, de modo que abranja tudo, como no amor de uma pessoa de outro sexo, quando este amor fica encalhado nas satisfações terrenas.

É isto que forma o seu atrativo, o seu estímulo e o seu veneno. A “adoração” que eu tributava a mim mesma, na pessoa de Max, tornou-se para mim, religião vivida. Era o tempo em que, no escritório, eu me insurgia, venenosa, contra os igrejeiros, os padres, as indulgências, contra o resmungo dos rosários e outras bobagens.

Você procurou, mais ou menos argutamente, tomar a defesa de tais coisas. Sem desconfiar, aparentemente, que no mais íntimo do meu ser, não se tratava, na verdade, destas coisas.

Eu procurava, mais que tudo, um apoio para minha consciência — e tinha, então, necessidade de um tal sustento — para justificar, também com a razão a minha apostasia.

Afinal de contas, eu me revoltava contra Deus. Você não me compreendeu, considerando-me, ainda católica. Queria mesmo ser chamada assim; pagava até as taxas da igreja. Uma certa “contra-garantia” pensava, não devia prejudicar-me.

As suas respostas, pode ser que algumas vezes, tenham acertado o alvo. Para mim, nada adiantavam, porque você não devia ter razão. Por causa destas relações fictícias entre nós duas, é que foi mínimo o pesar de nossa separação, por ocasião de meu casamento. Antes do casamento confessei-me e comunguei ainda uma vez. Era obrigatório. Eu e meu marido, sobre este ponto, pensávamos do mesmo modo.

Por que não deveríamos satisfazer esta formalidade? Cumpramo-la também nós, como qualquer outra formalidade.

Você qualifica de indigna uma tal comunhão. Pois bem, depois daquela comunhão “indigna”, eu tive mais calma na consciência. Mas, também, foi a última.

A nossa vida conjugal transcorria, em geral, numa invejável harmonia. Em todos os pontos de vista tínhamos a mesma opinião. Até nisto: não queríamos arcar com o peso dos filhos. Realmente, meu marido, de boa vontade, teria tido um. Mais de um, não, é claro. No fim, eu soube desviá-lo também deste desejo.

Vestidos, móveis de luxo, salões de chá, passeios e viagens de carro e semelhantes distrações, me interessavam mais[25]. Foi um ano de prazer na terra aquele que transcorreu entre meu casamento e minha morte repentina.

Todo domingo, saíamos de carro ou íamos visitar os parentes de meu marido, (dos de minha mãe, agora me envergonhava). Estes flutuavam na superfície da existência, nem mais, nem menos que nós. Intimamente, é claro, nunca me sentia feliz, embora, externamente risse.

Havia, sempre, dentro de mim, alguma coisa de indeterminado que me roía. Teria querido que após a morte, a qual naturalmente, devia estar ainda muito longe, tudo acabasse.

Mas, é mesmo, como um dia, quando pequena, ouvi dizer na prática: que Deus premia toda obra boa que a gente faz e quando não a puder recompensar na outra vida, fá-lo na terra.

Inesperadamente, recebi uma herança da tia Lotte. Meu marido felizmente conseguiu elevar seus vencimentos a uma notável quantia. Assim, pude organizar nova residência de maneira atraente.

A religião não refletia mais, senão de longe, a sua luz pálida, fraca e duvidosa. Os bares da cidade, os hotéis em que passávamos durante as viagens, não nos levavam, de certo, para Deus. Todos os que frequentavam aqueles lugares, viviam como nós, “de fora para dentro” e não “de dentro para fora”. Se em viagens de férias visitávamos alguma igreja, procurávamos deleitar-nos com o conteúdo artístico das obras. O clima religioso que inspiravam, especialmente, aquelas da Idade Média, eu sabia neutralizar, criticando alguma circunstância secundária: um frade acanhado, ou mal vestido que nos guiava — o escândalo dos monges que queriam passar por santos e vendiam licores — o eterno repique de sinos para as funções sagradas só para ajuntar dinheiro...

Assim, soube, continuamente, espantar de mim a Graça, toda vez que ela batia à minha porta.

Deixava livre desabafo ao meu mau humor de modo particular sobre certas representações medievais do inferno, nos cemitérios ou em outros lugares, em que o demônio assa as almas em brasas vivas e incandescentes, enquanto seus companheiros, de longas caudas, arrastam pra cá novas vítimas. Clara! O inferno pode-se errar ao descrevê-lo, mas não se exagera nunca!

O fogo do inferno, eu sempre o ataquei decisivamente. Você sabe, como durante uma discussão a respeito, lhe coloquei um fósforo diante do nariz e lhe perguntei com sarcasmo: “tem este cheiro?” Você apagou, depressa a chama. Aqui ninguém a apaga. E, eu lhe digo: o fogo de que se fala na Bíblia não significa tormento de consciência, não. Fogo é fogo! E deve-se entender literalmente aquilo que disse Ele: “Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno!” Literalmente![26]

“Como pode o espírito ser atingido pelo fogo material?” Perguntará você.

Como pode sua alma sofrer, na terra, quando você coloca seu dedo no fogo? A alma, de fato, não queima. No entanto, que tormento experimenta o indivíduo todo! De modo análogo, nós não estamos espiritualmente ligados ao fogo, segundo a nossa natureza e segundo as nossas faculdades. Nossa alma está privada do seu natural “bater de asas”, nós não podemos pensar aquilo que queremos.[27]

Não olhe com espanto para estas linhas: este estado, que, para vocês, não significa nada, me queima sem me consumir. Nosso maior tormento consiste em saber que nós jamais veremos a Deus.

Como pode isto atormentar tanto, uma vez que na terra a gente fica tão indiferente? Enquanto o punhal está sobre a mesa nos deixa indiferente. Vê-se que está bem afiado, mas, não o experimentamos. Enfia este punhal na sua carne e você começará a gritar de dor. Nós agora sentimos a perda Deus, antes, somente, pensávamos nela.[28]

Nem todas as almas sofrem em igual medida. Com quanto maior maldade e quanto mais sistematicamente uma pessoa pecou, tanto mais grave pesa sobre ela a perda de Deus e tanto mais a sufoca a criatura de que ela abusou.

Os católicos condenados sofrem muito mais do que os de outras religiões, porque estes, geralmente, receberam e desprezaram mais graças e mais luz.

Quem teve mais conhecimento, sofre mais duramente do que quem conheceu menos. Quem pecou por malícia sofre mais agudamente do que aquele que cai por fraqueza. Mas, ninguém sofre mais do que mereceu. Oh! Se isso não fosse verdade, de modo que eu tivesse um motivo para odiar!

Você me disse um dia que ninguém vai para o inferno sem saber e que isto teria sido revelado, por uma santa.

Eu me ri disso. Mas, depois, me escondi atrás desta declaração: “qual nada, em caso de necessidade, haverá bastante tempo para voltar atrás” me dizia secretamente.

E é verdade. Realmente, antes de meu inesperado fim, eu não conhecia o inferno como ele é. Nenhum mortal o conhece. Mas, eu tinha plena consciência: “se morres, vais, no mundo do além, rápida como uma flecha, contra Deus. Sofrerás as consequências”.

Eu não dei um passo sequer para trás, como já disse, porque estava dominada pelo hábito. Impelida por aquela conformidade pela qual os homens quanto mais envelhecem tanto mais agem em uma mesma direção. Minha morte foi assim.

Há uma semana — falo conforme a conta de vocês, porque, com relação à dor, poderia dizer que já faz dez anos, que queimo no inferno ― há uma semana, portanto meu marido e eu fizemos um passeio de domingo, o último para mim.

O dia surgiu radiante. Sentia-me bem como nunca. Invadiu-me um sinistro sentimento de felicidade que serpejou em mim durante todo o dia. Quando, de repente, na volta, meu marido foi ofuscado por um carro que vinha em alta velocidade.

Perdeu o controle.

“Jesus” me saiu dos lábios, como um arrepio. Não como oração, só como grito.[29]

Uma dor lancinante invadiu-me toda — comparada com a de agora, uma coisa à toa. Logo, perdi os sentidos.

Estranho! Naquela manhã surgiu em mim de modo inexplicável este pensamento: “poderias ainda uma vez ir à missa”. Insistente como um pedido.

Claro e resoluto o meu “não” partiu o fio dos pensamentos: “com estas coisas é preciso acabar de uma vez. Arco com todas as consequências”. Agora as sofro.

Isto que aconteceu após minha morte, você, já o saberá. A sorte de meu marido, de minha mãe, tudo o que aconteceu a meu corpo, o desenrolar de meus funerais, são conhecidos por mim em todos os seus pormenores, mediante conhecimentos naturais, que nós temos aqui.

O que afinal acontece na terra, nós só o sabemos confusamente. Mas aquilo que de alguma maneira nos atinge de perto, nós o conhecemos. Assim, vejo também onde você passa seu tempo.[30]

Eu mesma me acordei, inesperadamente, da escuridão, no instante de minha morte. Vi-me como que inundada por uma luz deslumbrante. Foi no lugar mesmo onde jazia meu corpo. Aconteceu como em um teatro, quando na sala, de repente, se apagam as luzes, o pano de boca se rasga rumorosamente, e se abre uma cena inesperada, horrivelmente iluminada. A cena de minha vida. Como em um espelho minha alma se mostrou a mim mesma. As graças desprezadas da juventude até ao último “não” diante de Deus. Eu me senti como um assassino diante do qual, durante o processo judiciário, é levada sua vítima desfalecida.

— Arrepender-me? Nunca![31]

— Envergonhar-me? Tão pouco!

Eu não podia, porém nem sequer resistir-me diante dos olhos de Deus por mim rejeitado. Não sobrava senão um recurso: a fuga. Como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim, minha alma foi impelida para longe daquela vista de horror. Isto foi o juízo particular. O juiz invisível disse: “afasta-te de mim!” Então minha alma, como uma sombra amarela de enxofre precipitou no lugar do eterno tormento.[32]

Assim, terminava a carta de Anita, procedente do inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, de tão deformadas que estavam, A própria carta se incinerou nas minhas mãos.

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De repente — que acontecia?

Na rude linguagem daquelas linhas que tinha acreditado ler, ressoa um suave toque de sinos.

Acordei de sobressalto. Estava ainda na cama, em meu quarto![33] O clarão vermelho da manhã penetrava pela janela. Da paróquia se ouvia o toque da Ave-Maria. Não sabia capacitar-me do quanto havia acontecido!

Nunca senti tanto o conforto da saudação angélica como após um tal retorno à serenidade da manhã. Recitei, lentamente, as três Ave Marias. Então, tornou-se claríssimo: “A Ela te deves manter segura, à bendita Mãe do Senhor; deves honrar filialmente a Maria se não queres ter a sorte de uma alma que não verá jamais a Deus”.

Tremendo ainda, pela assustadora noite, vesti-me depressa e corri pelas escadas abaixo, para a capela da casa.

Meu coração batia até na garganta. As poucas hóspedes ajoelhadas mais perto de mim, me reparavam. Talvez, pensassem que eu estivesse tão excitada porque havia corrido pelas escadas.

Uma velha e bondosa senhora de Budapeste, já experimentada pelo sofrimento, fraca como uma criança, míope, mas perita nas coisas espirituais e fervorosa no servir a Deus, à tarde no jardim, me disse sorrindo: “Menina, Deus não quer ser servido pelo trem expresso!”

Mas, em seguida percebeu que alguma outra coisa me havia agitado e ainda me agitava. Tranquilizando-me, acrescentou:

“Nada te perturbe...” — você conhece o verso de Santa Teresa?
“Nada te perturbe.
Nada te amedronte.
Tudo passa,
Deus não se muda.
A paciência
Tudo consegue.
A quem possui Deus
Não falta nada:
Deus só basta.”[34]

Enquanto ela sussurrava estes versos, devagar e sem nenhuma tonalidade instrutiva, me pareceu que eu lia na minha alma: ― “Deus só basta!”[35]

Sim. Ele só me deve bastar aqui embaixo e no além. Eu quero, um dia, possuí-lo no além, mesmo que me custe aqui muitos sacrifícios. Não quero ir para o inferno.

==*=*=*==

A pessoa que fez a presente publicação no original alemão prefere conservar-se a si mesma, e os demais atores do acontecimento, na reserva do anonimato.

O escrito, entretanto, corre em prósperas edições, pelas mãos dos leitores sempre mais numerosos e, fere o espírito, de comoção, de piedade e de estremecimento.

Suas páginas vivas e espantosas encerram uma experiência, muito humana e comum da vida terrena, em que se defronta grande parte da complexa religiosidade contemporânea. Ao mesmo tempo, levantam o véu do mais fascinante e terrível mistério que nos espera.

Não se podem ler com indiferença ou só por curiosidade; a gente se vê, no fim, empenhado, pessoalmente, em uma revalorização reflexa de juízo e ao mesmo tempo de sentimento.

No drama que esta testemunha faz reviver, vem expressa, embora de maneira estritamente pessoal, toda a realidade humana e divina em que está se atualizando e desenvolvendo a nossa existência.

Sentimo-nos honrados em oferecer à sensibilidade dos leitores brasileiros este breve documento de vida.

Roma, março de 1952.

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[1] H. Federer (1866-1928), sacerdote, romancista popular; “Jovem Teresa”. 1913.
[2] Muitas vezes os homens, enganados pelo Maligno, se desvaneceram em seus pensamentos e mudaram a Verdade de Deus em mentira, servindo à criatura mais que ao Criador ou, vivendo e morrendo SEM DEUS neste mundo se expõem a CONDENAÇÃO ETERNA. (Conc. Vat. II Lg 16)
[3] Palavras de Meflstofele em “Fausto” de Goethe.
[4] Os condenados quereriam que todos os bons se condenassem. – Santo Tomás de Aquino – Summa Teológica (S. Th) Suplemento (Spl) Q 98, a. 4.
[5] Eles têm uma vontade deliberativa. Tal vontade neles é somente má! (S. Th. Spl. Q. 98, a. 1, r)
[6] O não existir... enquanto libertaria de uma vida de punição e de infelicidade... seria melhor para os condenados do que ser infelizes..., e assim preferiram não existir. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 3, r)
[7] Não há nada nos condenados que não lhes seja matéria e motivo rio pena. Assim (por exemplo) quando voltam a sua atenção para coisas conhecidas na vida. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 7, r)
[8] ... e os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá CHORO E RANGER DE DENTES. (Mt 13, 41)
[9] Nos condenados domina um ódio perfeito. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 4, r)
[10] Antes do dia do juízo, os condenados não veem os bem-aventurados a ponto de conhecer a natureza da sua glória, mas sabem somente que eles se encontram em uma glória inestimável. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 9, r)
[11] ... os condenados tem ódio a Deus porque Ele os castiga e lhes proíbe aquilo que esta¬ria de acordo com a própria maldade de sua vontade. Por isso o consideram somente como punidor e proibidor. Portanto, conhecendo a Deus nos efeitos da sua justiça, isto é, na sua punição, odeiam-no como odeiam os castigos que eles suportam. (S. Th. Spl. Q. 98 a. 8 ad 1)
[12] Na condenação dos réprobos aparece a misericórdia de Deus enquanto Ele os castiga menos do que mereceriam. (S. Th. I Q. 21 a. 4 ad 1)
[13] Os detalhes precedentes sobre o pai de Anita e o episódio seguinte são fatos comprovados.
[14] É um parêntesis do manuscrito.
[15] O nome de Maria, Mãe de Deus, não é pronunciado. Atestado pelos exorcistas em várias ocasiões. Em Fátima, Ela mostrou às crianças o horror do inferno e lembrou a arma poderosa que o cristão tem – a reza do Santo Rosário. (13 de julho 1917)
[16] Vós, portanto, deveis rezar assim: “Pai nosso, que estais no céu...” (Mt 6, 9)
[17] Porque onde está o teu tesouro, aí também estará o teu coração. O olho é a lâmpada do corpo... (Mt 6, 21)
[18] S. Pedro escreve: “Irmãos sede sóbrios e vigiai, porque o vosso adversário, o demônio, vos circunda como um leão que ruge procurando a quem devorar” (1 Pedro 5, 8). O rugido não significa que satanás faça muito barulho com suas tentações, mas, ao contrário, exprime a avidez com que ele procura perder-nos.
S. Paulo escreve aos Efésios (6, 11-12): “Revesti-vos com a couraça de Deus, para poder enfrentar as insídias do demônio, pois que não é a nossa luta com o sangue e com a carne (contra os homens), mas, contra os Principados e as Potestades, contra os dominadores do mundo das trevas, contra os espíritos malignos do ar”. Aqui, se diz claramente que o maligno nos hostiliza com inúmeros satélites provenientes dos vários coros dos anjos decaídos (Principados, potestades etc.). (Conf. S. Th. l Q, 63, a. 9, ad 3). O demônio não deveria chamar-se: “dominador do mundo” se seu influxo na terra não fosse poderoso.
[19] Não compete aos réprobos levar à ruína os outros, este é ofício próprio do demônio. (S. Th. Spl. Q. 98, a. 6, ad 2)
[20] Quanto mais aumenta o número dos danos tanto mais cresce o tormento de cada um. Estão porém tão cheios de ódio e de inveja, que eles preferem sofrer mais em companhia de muitos, do que sofrer menos, sozinhos. {S. Th. Spl. Q. 98, a. 4, ad 3)
[21] A semente que caiu entre espinhos representa aqueles que ouvem, mas são sufocados pelas preocupações, pelas RIQUEZAS e pelos PRAZERES da vida. (Lc 8,14)
[22] Jesus nos lembra bem claramente a sorte dos condenados. (Lc 6,19-31)
[23] Hb 12, 6 – Prov 3,12.
[24] Anotação do manuscrito.
[25] Larga é a porta e ESPAÇOSO O CAMINHO que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela. (Mt 7,13)
[26] ... apartar-nos para o fogo eterno... (Conc. Vat II LG 48)
[27] O logo do Inferno atormenta o espírito impedindo-o de seguir a sua vontade. Este, (o espírito) não pode agir onde quer e como quer. (S. Th. Spl. Q. 79, a. 3 r.)
[28]
...